As muitas faces de Deus e as portas que elas nos abrem

Um midrash famoso diz que toda pessoa é conhecida por três nomes: um pelo qual seus pais a chamam, um pelo qual as outras pessoas a chamam e um que ela constrói para si mesma [1]. O midrash aponta para o fato de que apresentamos diferentes facetas de nós mesmos em momentos diversos das nossas vidas: somos carinhosos e cuidadosos ao pegar um bebê recém nascido nos braços, animados quando celebramos uma data importante, agressivos quando reclamamos de uma injustiça.

 

Logo no começo da parashá desta semana, o texto indica que essa dinâmica também se aplica à relação de Deus com as pessoas. Deus diz a Moshé: “Eu sou Adonai.  Apareci a Avraham, Itschac e Iaacov como El Shadai, mas não permiti que eles conhecessem meu nome Adonai.” [2] (no texto da Torá em hebraico, Deus usa seu nome impronunciável, que eu traduzi como “Adonai”)

 

Nessa fala, Deus reconhece que o tipo de relacionamento que teve com os três patriarcas, fundadores da fé e da família que daria origem ao povo judeu, não era o mesmo que teria com Moshé, líder de uma nação escravizada, seu libertador e representante político.

 

O mestre chassídico Levi Itschac de Berditschev comparou Deus no momento de abrir o mar para a saída dos hebreus do Egito a um jovem sem barba mas disse que, ao revelar a Torá no Monte Sinai, Deus apareceu como um velho, com longas barbas que envolviam e vestiam o mundo. Para o rabino, a saída do Egito é um modelo de força Divina, enquanto a entrega da Torá é um exemplo de Deus se controlando e limitando Seu impacto. [3] Nesse comentário, ele reconhece que mesmo na relação com Moshé e a geração que foi libertada do Egito, Deus se comportou de formas distintas, respondendo às demandas de cada momento.

 

Da mesma forma, cada um de nós desenvolve seu próprio relacionamento com o Divino, que evolui e se transforma ao longo das nossas vidas. Quantas vezes não pedimos que Deus agisse como “curador-chefe”, nos livrando de uma doença que nos afligia? Em outros momentos, podemos ter pedido para que Deus fosse mais enérgico, nos encorajando a sair de um estado de passividade para que assumíssemos a condução de nossa própria vida ou que Deus nos acolhesse e permitisse que, metaforicamente, deitássemos em Seu colo, recebêssemos cafuné e chorássemos nossa tristeza.

 

Essa riqueza de imagens para a realidade Divina é parte fundamental da tradição judaica que, em sua pluralidade teológica acolhe até mesmo os mais racionais e aqueles para quem a palavra “Deus” não remete ao inexplicável, àquilo que está além da nossa compreensão. Para alguns, imagens mais consolidadas de Deus, tão presentes em filmes e até em muitas partes da liturgia judaica (Deus como Rei, como Pai, como Pastor), ao invés de abrirem a conexão espiritual, a bloqueiam e impedem que se estabeleça um vínculo. Para estes casos, talvez ajude a pensar em Deus como “fonte da vida”, “alma de toda coisa viva” ou “fagulhas da alma”, como sugere a poetisa judia americana Marcia Falk [4].

 

Se Deus se revela com todas estas faces e com todos estes nomes, cabe a cada um de nós deixar a porta entreaberta para que ao menos um aspecto do Divino possa nos acolher e encher nossos dias de significado e de possibilidades. Que assim seja este nosso Shabat!