Chuva

Na próxima segunda realizaremos a oração pela chuva. Pouco conhecida por grande parte de nossa comunidade, esta cerimônia sempre ocorre oito dias depois do início de Sucót. Uma vez encerrado o calendário agrícola em Israel, pedimos a Deus que envie água na quantidade certa durante os próximos meses. Desta maneira, quando as chuvas cessarem, mais um ano de colheitas poderá ter início junto com a próxima festa de Shavuót, a festa dos primeiros frutos.
Segundo o professor Eliezer Schweid, um dos maiores filósofos judeus vivos de quem tive o privilégio de ser aluno, as histórias bíblicas nos indicam haver uma relação entre a oferta de água e o comportamento de uma sociedade. Nos locais onde havia grandes rios, como o Nilo egípcio, o sentimento de propriedade sobre a terra e controle do destino eram reforçados. Assim, muitas destas sociedades desenvolviam sistemas de tirania e escravidão. Por outro lado, nas comunidades que precisavam da chuva, as pessoas experimentavam uma constante dependência em relação a Deus. Por este motivo, este grupo tinha uma inclinação a desenvolver um maior senso de justiça e liberdade.
Quando rezamos o Shemá Israel, repetimos versículos bíblicos que estabelecem uma conexão entre a concessão de chuvas e o nível moral de uma sociedade. Assim está escrito: “Se vocês cumprirem meus mandamentos, Eu vou garantir chuvas na época certa, a primeira chuva (iore) e a última da temporada (malcósh), então você comerá e ficará satisfeito. Cuide-se para não se desviar do caminho indicado, senão Deus fechará as comportas do céu, não haverá chuvas e a terra não entregará seu produto”.
Pessoas críticas podem ter dificuldades em acreditar que o comportamento do ser humano tem relação com a quantidade de chuva. Nossa sofisticação científica e filosófica nos impedem de acreditar que possa existir nexo direto entre as atitudes de determinada sociedade e o sucesso de sua produção agrícola. Afinal de contas, danças-da-chuva são rituais de “povos primitivos”. Os ambientalistas chamam nossa atenção para a profunda relação que existe entre enfermidades sociais e desafios ambientais. O crescimento urbano e o consumismo desenfreado são exemplos do impacto ambiental que o comportamento social produz. Não há dúvidas de que exista uma relação muito próxima entre nível moral e compromisso ambiental de determinada sociedade. Na medida em que os homens foram se afastando da natureza, uma falsa sensação de independência se desenvolveu. A tecnologia pode gerar a arrogância de acreditarmos que não precisamos mais de Deus e “Suas chuvas”.
Além da reza pela chuva, será realizado o Izcór no próximo domingo e segunda. Gostaria de convidar todos a estarem presentes. Rezo para que aproveitemos a oportunidade para revisar com coragem nosso comportamento. Que sejamos capazes de incrementar consciência ambiental em nosso cotidiano. Que possamos reconhecer a profunda relação que existe entre ética e chuva.
Moadim LeSimchá e Shabat Shalom!
Rabino Michel Schlesinger