Em Parashat Vaietsê, caminhamos ao lado de Jacó em um dos momentos mais frágeis de sua vida, quando ele foge de casa após enganar o irmão e decepcionar o pai à beira da morte. Jacó carrega culpas e, sobretudo, medos. E é justamente nessa travessia — no intervalo entre o que já não somos e o que ainda não sabemos ser — que ele encontra seu sonho mais luminoso: uma escada fincada na terra, cujo topo toca o céu, com anjos subindo e descendo como respirações do próprio universo.
Esse sonho expressa uma antiga aspiração humana. Quem nunca desejou uma passagem direta para resolver suas angústias? Quem não ansiou por uma resposta capaz de iluminar a dor, ou por um vislumbre daquilo que permanece oculto quando atravessamos perdas? Quem não buscou uma certeza que orientasse o rumo na hora das mudanças?
Às vezes imaginamos subir essa escada para alcançar o invisível, para tocar novamente quem amamos, para compreender o que o mundo concreto não revela.
Na sua solidão mais profunda, Jacó se torna mais vulnerável — e também mais humano. Ele se rende ao mistério e, como nos lembra Shefa Gold, “transforma o medo em portal, e cada respiração em cântico que nos reconecta ao Sagrado”.
Então percebemos algo essencial: a escada não está ali apenas para subir. Os anjos sobem e descem. Há um fluxo. Um vaivém. Uma dança. O céu toca a terra com a mesma intensidade com que a terra deseja o céu. A espiritualidade não é fuga: é encontro. Não é apenas transcendência: é presença. É escutar, dentro do caos, aquele “canto suave que sempre esteve aqui”, como ensina Shefa.
Jacó desperta e diz: “Deus está neste lugar, e eu não sabia.” Quantas vezes caminhamos pelas encruzilhadas da vida sem notar que uma chama silenciosa nos acompanhava? Só mais tarde, ao olhar para trás, percebemos que cada desvio, cada queda, cada pausa, cada noite escura escondia uma centelha de revelação — um anjo subindo, outro descendo — um movimento que nos sustentava e impulsionava sem que percebêssemos.
Depois desse despertar, Jacó segue sua jornada e encontra o amor de Rachel, talvez justamente quando menos esperava. Esse amor não cai do céu, apesar do sonho da escada; ele brota de um coração que aprendeu a ver, a trabalhar, a perseverar. Ele ama, serve, espera, luta e recomeça. A espiritualidade bíblica é vivida com os pés firmes na terra e o coração aberto ao infinito.
A história de Jacó é também a nossa história. Todos fugimos de algo; todos erramos; todos atravessamos noites que parecem não ter fim. E, como Jacó, precisamos das pausas que nos permitem sonhar — sonhar acordados — e levantar os olhos para a lua e as estrelas, até lembrar que também brilhamos, que também somos parte dessa escada viva entre céu e terra.
Os sonhos que transformam o mundo não são os que visitam nosso sono, mas aqueles que ousamos alimentar quando despertamos para a vida, quando enfrentamos nossas sombras, aceitamos nossos fracassos e escolhemos tentar novamente. Assim como o patriarca, que o sonho se torne visão, a visão se torne caminho, e o caminho se torne bênção.
Que cada passo nos ensine a tocar o infinito sem deixar de caminhar com firmeza pela terra.
E que tenhamos coragem de recomeçar sempre, lembrando que os sonhos que acendemos dentro de nós podem, como a escada de Jacó, transformar até os caminhos mais difíceis em uma nova bênção.
Shabat shalom
