Como lidamos com os fracassos?
O que fazemos quando percebemos que algo fundamental se perdeu?
Depois do drama da semana passada — o episódio do bezerro de ouro, que termina com as tábuas da lei estilhaçadas , a Torá começa esta semana a esboçar uma resposta.
“Vayakhel Moshe” — Moshê reuniu todo o povo.
Quando algo se quebra e o instinto é se afastar, a resposta da Torá é reunir.
Depois da falha e da sensação de que algo precioso havia se quebrado, o primeiro movimento não é a punição. Também não é o afastamento.
É o reencontro.
Moshê reúne o povo.
Não desiste deles. E assim as mesmas mãos que haviam construído o ídolo , mas que ainda guardavam dentro de si a possibilidade de reparar , tornam-se agora artífices do Mishkan, a casa de Deus entre nós.
Essa é uma ideia inspiradora e instigante: o sagrado não nasce do decreto de um líder, mas de um convite.
Um convite para que cada pessoa decida de que obra quer fazer parte.
Por isso Moshê diz ao povo:
“קְחוּ מֵאִתְּכֶם תְּרוּמָה לַה׳ — כֹּל נְדִיב לִבּוֹ יְבִיאֶהָ”
“Tomem dentre vocês uma oferenda para o Eterno — todo aquele cujo coração o mover, que a traga.”
(Êxodo 35:5)
E então algo extraordinário acontece. A Torá descreve homens e mulheres trazendo ouro, tecidos, madeira, habilidades e talentos. Artesãos aparecem. Pessoas descobrem capacidades que talvez nem soubessem que possuíam.
Como se, ao serem chamados a construir algo maior do que si mesmos, descobrissem também novas dimensões dentro de si.
Cada um traz algo.
Alguns trazem matéria.
Outros trazem mãos.
Outros trazem sabedoria.
Outros simplesmente trazem o coração.
Talvez por isso a Torá descreva o santuário com tanto detalhe. Não é apenas uma construção física. É o retrato de uma comunidade que decidiu oferecer o melhor de si.
Isso é um santuário: uma casa para Deus construída por pessoas.
Pessoas imperfeitas. Pessoas que falharam. Pessoas que ainda estão aprendendo quem são.
Talvez seja justamente por isso que a presença divina pode habitar ali.
O sagrado não desce pronto do céu.
Ele precisa de mãos humanas para encontrar o seu lugar no mundo e se revela quando uma comunidade transforma generosidade em espaço, talento em serviço e intenção em presença.
Que o Mishkan surja justamente depois de um dos momentos mais dolorosos da jornada do povo nos ensina algo essencial: o erro não encerra a história. Às vezes, ele abre a possibilidade de uma forma mais profunda de presença.
Talvez por isso a parashá comece com Vayakhel – reunir-.
Da mesma raiz nasce também a palavra kehilá, comunidade.
Porque quando pessoas comuns decidem oferecer o que têm – mãos, talentos e coração- conseguem construir juntos um lugar onde a presença de Deus decida permanecer entre nos
E assim o humano se transforma em morada para o sagrado.
Shabat Shalom!
Rabino Dario Bialer
