Saindo do Egito ano após ano | Rav Natan Freller

Pêssach é a festa das perguntas. Você já percebeu que o nome de Moshé, o grande líder do nosso povo na saída do Egito, quase não aparece na Hagadá?

A gente conta a história da saída do Egito com tantos detalhes… e, ainda assim, quase não fala de Moshé! Como pode? O que podemos aprender dessa decisão deliberada de nossos antepassados?

Nesse Shabat, lemos uma parashá especial por ser durante Pêssach. Nessa leitura, depois de um dos momentos mais difíceis do povo (a história do bezerro de ouro), Moshé pede a Deus: “mostra-me a Tua presença”. O pedido de Moshé aponta para proximidade, direção, presença. E, a partir disso, forma um novo modo de relacionamento com o divino e com a própria identidade.

Acredito que uma das respostas possíveis para esses questionamentos fala sobre a marca de um verdadeiro líder. Um grande líder não precisa aparecer, mas fazer com que outros apareçam. Moshé conduz um povo inteiro à liberdade mas não está no centro da narrativa da hagadá, como se abrisse espaço para que cada um encontrasse o seu próprio papel, como quem diz: agora é com vocês.

A liberdade que celebramos no Pêssach vai além de sair de um lugar. Ela nos chama a assumir um lugar. É deixar de esperar que alguém conduza nossa vida por nós e começar a conduzir por nós mesmos: a própria vida, as próprias escolhas, o próprio papel dentro de uma família, de uma comunidade, de um povo.

No começo do Seder, a hagadá nos faz um convite curioso: “Em toda geração, cada pessoa é obrigada a se ver como se tivesse saído pessoalmente do Egito.”

A narrativa deixa de ser algo distante e passa a nos envolver por inteiro. A gente se vê ali, caminhando, hesitando, atravessando. A saída ganha vida nas escolhas que fazemos, nos lugares em que decidimos nos posicionar, nas responsabilidades que escolhemos assumir. Em cada geração, em cada um de nós, existe um Egito a ser atravessado.

Onde, na minha vida, estou esperando que outro lidere por mim? E onde eu posso dar um passo à frente?

Ser líder não significa ter título. Significa não se ausentar da própria vida. Significa buscar presença, assim como Moshé buscou, e a partir dela, reconstruir, recomeçar, seguir adiante.

A saída coletiva do Egito aconteceu uma vez. Ano a ano, nos reencontramos com nossos Egitos e buscamos dar novos passos na direção da liberdade, assumindo nosso lugar. Quando fazemos isso juntos, nos fortalecemos como comunidade, caminhando lado a lado e nos apoiando a cada passo.

Chag Pêssach Kasher veSameach e Shabat Shalom