Há momentos raros em que o humano e o divino parecem finalmente se encontrar.
E quando isso acontece, algo extraordinário se torna possível.
A Parashat Shemini começa justamente assim.
“Shemini” significa “oitavo”.
O oitavo dia após os sete dias de preparação para a inauguração do Mishkan.
Na tradição judaica, o número sete representa o ciclo divino do mundo, os sete dias da criação, o ritmo da existência moldado por Deus.
O oitavo, porém, aponta para algo além.
Não por acaso, é no oitavo dia que o Mishkan é inaugurado.
O santuário, o lugar de encontro entre Deus e os seres humanos.
Claro, a Torá não sugere que Deus precise de um lugar para habitar.
O Deus da tradição judaica não se limita a um espaço físico.
Mas há momentos que interrompem a rotina,
que marcam o tempo de forma diferente,
que nos colocam juntos de outra maneira.
E então, no oitavo dia, isso acontece.
A presença divina desce.
O fogo celestial aparece.
O povo vê.
“Vayar kol ha’am, vayarônu vayiplu al pneihem”
“O povo viu, cantou e caiu sobre seus rostos.” (Levítico 9:24)
É um momento de plenitude.
Um daqueles instantes em que o humano e o divino parecem, por um breve momento, se tocar.
Talvez seja isso que o oitavo dia represente.
Não apenas um momento fora do ciclo,
mas o instante em que algo novo se torna possível.
O oitavo é o momento em que o humano se abre para o transcendente.
E talvez esse seja também o convite de Shemini.
Criar pausas na rotina.
Abrir espaços no tempo.
Permitir momentos que não cabem apenas no cotidiano.
Porque, às vezes, o sagrado aparece quando nos reunimos.
Quando cantamos juntos.
Quando algo silenciosamente se transforma.
Há instantes em que a vida deixa de ser apenas continuidade
e se torna abertura.
Instantes em que algo se desloca,
em que a rotina se interrompe,
em que sentimos, mesmo sem palavras
que estamos diante de algo maior.
E talvez seja isso que Shemini nos ensina:
há momentos em que o humano,
ainda envolto em sua própria finitude,
se abre -por um instante-
ao que o transcende.
Shabat Shalom!
