Quando lemos nas Parashiot Tazria-Metzorá sobre tzara’at, uma doença misteriosa que traz manchas na pele, muitos seguem a interpretação de que se trata de casos de lepra. Porém, esse é um erro de tradução com quase dois mil anos de história!
Foi a Septuaginta, a tradução da Torá ao grego, que traduziu a palavra hebraica tzara’at como lepra. O problema é que a condição descrita na Torá simplesmente não corresponde aos sintomas da hanseníase. Como poderia uma mesma “doença” acometer tanto a pele humana quanto roupas e paredes de casas? Claramente, estamos diante de algo além do campo médico.
Os sábios, atentos a essa estranheza, buscaram a resposta em outro lugar da Torá. Miriam foi castigada com tzara’at por falar mal de seu irmão mais novo, Moshé, e sua esposa, Tsipora. A partir daí, os rabinos estabeleceram uma conexão interessante: metzorá, o nome dado a pessoa afligida por tzara’at, soa como a expressão “motzi shem ra”, que significa: “aquele que espalha má reputação, que difama”.
Rambam descreve esse processo de modo gradual: aquele que difamou outras pessoas começa a ser advertido pelas paredes de sua própria casa, depois por seus pertences, depois por suas roupas, e só então, se o comportamento persistir, a marca aparece em seu próprio corpo. O privado se torna público. O que foi sussurrado às escuras é exposto à luz.
Essa ideia ressoa profundamente com uma imagem famosa e conhecida das penas de um travesseiro. Destrua um travesseiro de penas e as jogue para o alto. As penas voarão de maneira que jamais seremos capazes de recolher cada uma delas. O mesmo acontece com as palavras, uma vez pronunciadas, suas consequências não têm volta.
Segundo o Talmud, é quase impossível passar um dia sequer sem deslizar nas leis do discurso ético. Mas isso não nos isenta da responsabilidade. Pelo contrário, nos convoca a uma vigilância constante. Nossa tradição equipara a difamação ao assassinato: retirar a honra de alguém é como interromper sua vida.
E ainda assim, essa mesma língua que pode destruir é a que declara amor, escreve um livro, canta, traz palavras de apoio e consolo, cria mundos inteiros.
Que esta semana nos relembre a importância de cada palavra que escolhemos dizer e não dizer. Falar é um ato de criação ou de destruição e a responsabilidade sobre cada uma delas é totalmente nossa.
Shabat Shalom!
