Juventude da CIP participa do Ato de Yom HaShoá no Memorial do Holocausto

Abril

2026

No dia 13 de abril, a Juventude da CIP participou do Ato de Yom HaShoá realizado no Memorial do Holocausto, em São Paulo.

O jovem André Telent Cimerman, da tnuá Avanhandava, escreveu um texto que foi lido por quatro jovens durante a cerimônia. Em conjunto com participantes de outras tnuot, os jovens também se uniram aos sobreviventes no acendimento das velas em memória dos 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto.

O momento destacou a importância do protagonismo juvenil na preservação da memória coletiva, evidenciando o papel das novas gerações como agentes ativos na transmissão de valores e na continuidade da vida comunitária.

Confira o texto lido durante a cerimônia:

Em Yom HaShoá, não basta apenas lembrar, pois lembrar, sozinho, não muda nada. O problema nunca começou quando tudo já estava destruído. Começou quando ainda era possível ver, quando ainda era possível agir, e mesmo assim, seguiram em frente.

Antes dos campos de concentração, vieram os guetos. E os guetos não eram só cercas e muros. Eram fome, superlotação, doença, medo constante. Uma realidade construída para desgastar, para reduzir a vida ao mínimo. Para nos levar a esquecer que éramos humanos.

No Gueto de Varsóvia, mais de 400 mil judeus foram comprimidos em um espaço fechado. A cada dia, as condições pioravam, e a vida já não se parecia com aquilo que um dia chamávamos de vida. Mesmo assim, algo permanecia.

Esse algo encontrava forma e força nas tnuot, que se reorganizaram. Jovens começaram a se encontrar escondidos, sem segurança, sem estrutura, sem saber o que traria o dia seguinte, mas com a esperança de que aquilo teria fim. Então, eles criaram redes clandestinas de educação, em apartamentos fechados, em porões, em silêncio.

Ali, ensinavam história, literatura e hebraico. Mas, principalmente, ensinavam a pensar, a não aceitar automaticamente o mundo como ele estava sendo imposto.

As crianças sabiam do risco. Quem organizava sabia ainda mais. E, mesmo assim, continuaram. Porque educar, naquele contexto, não era apenas uma preparação para o futuro, mas uma forma de não abrir mão do que eles eram. Era lembrar que eram humanos, que questionavam juntos as problemáticas do mundo que os cercava e, sobretudo, que resistiam, porque nunca lhes poderiam tirar a capacidade de pensar criticamente.

Quando começam as deportações em massa, em 1942, muitos desses jovens são os primeiros a compreender que os judeus não estavam sendo enviados a campos de trabalho, mas ao extermínio. A partir daí, começam a se organizar.

A resistência no Gueto de Varsóvia não surge do nada; ela nasce dessas redes, desses encontros, dessa formação. Ela nasce da capacidade inerente do jovem de refletir sobre a realidade e apresentar soluções que se recusam a aceitar os limites do possível, mesmo que o outro as julgue. Então, quando o levante começa, em 1943, são esses jovens que estão à frente.

Eles sabiam. Sabiam que não iam vencer, sabiam que dificilmente sairiam vivos e, ainda assim, decidiram não aceitar ir passivamente, não por ilusão de vitória, mas porque não estavam dispostos a aceitar aquela condição de existência. E isso não começa na revolta.

Começa antes, nessas decisões de continuar educando, de continuar se encontrando, de continuar pensando, mesmo quando muitas vezes parecia não fazer sentido. E essa é uma das razões que tornam essa história difícil de ignorar.

Esse processo de desumanização continua reconhecível. Ele aparece também nos conflitos atuais, quando aprendemos a conviver com a dor de populações inteiras, quando algumas vidas passam a ser tratadas com menos dignidade e isso deixa de causar estranhamento, quase sempre acompanhado de explicações, de medos, de justificativas.

Por isso, quando educamos sobre a Shoá, não é apenas sobre o passado, não é só contar o que aconteceu, nem só transmitir memória: é construir um olhar.

Porque aqueles jovens, dentro dos guetos, não estavam só recebendo informação; eles estavam sendo formados para pensar, para questionar, para não aceitar automaticamente o mundo como ele era apresentado, para entender que o que acontece com o outro também diz respeito a eles. E é isso que aparece depois.

A resistência não começa quando pegam em armas; ela começa quando alguém se recusa a aceitar o que está diante dos próprios olhos.

Por isso, educar sobre a Shoá hoje tem um objetivo claro: é para que ninguém mais precise viver aquilo, é para que nenhuma pessoa, judeu ou não judeu, seja tratada como se valesse menos, é para que não aceitemos a falta de liberdade, a desumanização e a violência como algo normal. É para que lembremos que somos humanos, assim como os nossos vizinhos. Este também é o nunca mais.

E isso exige desenvolver um olhar crítico: um olhar que não depende de um lado só, que consegue enxergar a realidade por diferentes lentes, que não se satisfaz com explicações fáceis, um olhar que percebe quando algo está errado, mesmo quando é complexo, mesmo quando é desconfortável.

Porque, no fim, essa é a diferença entre só lembrar da história e realmente aprender com ela. Que possamos continuar formando jovens responsáveis pela continuidade e pelo futuro da nossa comunidade, pessoas que não aceitam a indiferença como resposta, não importa quem seja.

O momento destacou a importância do protagonismo juvenil na preservação da memória coletiva, evidenciando o papel das novas gerações como agentes ativos na transmissão de valores e na continuidade da vida comunitária.