Assim como em Pessach, a hagadá nos recorda o ensinamento dos sábios de que devemos ver-nos como se nós mesmos tivéssemos saído do Egito [Pessachim 116b], em Shavuot, está a ideia de que cada judeu, de todas as gerações, esteve presente no Sinai recebendo a Torá [Devarim 29:13-14]. E na travessia entre o Êxodo e o Sinai, nos encontramos com a parashat Bamidbar, que significa “no deserto”.
Deveríamos então transitar esse percurso do deserto, enquanto contamos os dias até completarem 7 semanas, como fizeram os primeiros israelitas? Somos capazes de sentir o sabor do maná que caía pela manhã para alimentar todo o povo?
Se a memória do Sinai dorme em nós, e se a Hagadá nos convoca a reviver o Êxodo, então o deserto não é um intervalo vazio, é o lugar da preparação. É onde aprendemos que a santidade não habita apenas no destino, mas no deslocamento.
Já que nossas almas estiveram ali, talvez exista uma memória adormecida à espera de ser despertada através da nossa kavaná (intenção). Esforçamo-nos para sentir como se tivéssemos vivenciado em primeira mão tanto a escravidão como a libertação do Egito, como se nós mesmos tivéssemos testemunhado os milagres no deserto e escutado a voz no Sinai.
Escolhemos para trás, resgatando a memória de quem fomos; e escolhemos para frente, decidindo quem queremos ser.
Bamidbar, a parashá que inicia a narrativa do segundo ano da travessia, nos lembra a jornada que acontece no deserto, não na Terra Prometida. Não no destino final, mas no caminho. E à medida que Israel viajava, a cada parada o Mishkán era novamente erguido, regressando o espaço de santidade central no acampamento. E outra vez voltavam a desmantelá-lo, em um movimento rotineiro. Santidade e cotidiano conviviam, assim como a sacralidade do shabat dá lugar à rotina da semana.
O transporte dos utensílios é descrito na parashá como uma árdua tarefa atribuída à tribo de Levi. Não era tarefa simples, especialmente o procedimento cuidadoso de deslocar a Arca Sagrada. Mas talvez a tarefa mais complexa fosse preservar a sacralidade mesmo quando os braços carregavam aquilo que os olhos não podiam alcançar.
Se o Mishkán era desmontado e remontado a cada parada, talvez a sacralidade não esteja nos objetos, mas no ato de os transportarmos conosco. Não depende do lugar, mas da escolha de erguer o santuário onde quer que estejamos.
Escolher a Torá, escolher a memória, escolher ensinar. É assim que o deserto se torna travessia. Não porque chegamos, mas porque a cada parada, como os levitas, reerguemos aquilo que carregamos dentro de nós.
É na travessia que a Torá nos é entregue novamente. E é nas escolhas que fazemos ao longo do caminho que voltamos a recebê-la e nos tornamos quem somos.
Na próxima semana, aos pés do Sinai mais uma vez, lembremos: não estamos apenas recordando um evento. Estamos escolhendo, com cada passo no deserto, tornar sagrado o caminho.
Shabat Shalom!
Rabina Kelita Cohen
