A Congregação Israelita Paulista (CIP) promoveu, no último sábado, 17 de outubro, um encontro marcado por relatos emocionantes e reflexões sobre os impactos dos ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 em Israel. Realizado em parceria com o NCEJe a StandWithUs Brasil, o evento reuniu Rafael Zimerman, brasileiro sobrevivente do massacre no Festival Nova, e Noam Kramer, psicólogo e pesquisador do grupo Diálogos da Diáspora, Racismo e Antissemitismo do Labô/FUNDASP. A conversa abordou temas como trauma, superação, identidade judaica, pertencimento e o papel da comunidade no processo de recuperação emocional.
Diante de um público que contou com a presença de muitos jovens da comunidade e do movimento juvenil Chazit, Rafael compartilhou momentos dramáticos vividos durante o ataque do Hamas. Morando em Israel havia apenas cinco meses, ele participava do Festival Nova quando precisou buscar abrigo em um bunker improvisado em um ponto de ônibus, onde permaneceu por quase cinco horas. O espaço, com capacidade para aproximadamente 15 pessoas, abrigava cerca de 40, que foram atacadas com tiros, granadas e gás. Apenas nove sobreviveram. Rafael saiu ferido e em estado de choque, carregando lembranças que, segundo ele, permanecem até hoje, como o cheiro de queimado, as imagens dos corpos e as risadas dos terroristas.
Um dos momentos mais marcantes do encontro foi quando ele descreveu a sensação de reviver, durante o ataque com gás, o sofrimento de gerações anteriores de sua família, que tem raízes na Polônia e uma história ligada ao Holocausto. A experiência abriu espaço para reflexões sobre a transmissão geracional do trauma e seus efeitos sobre a comunidade judaica, inclusive entre aqueles que não vivenciaram diretamente os acontecimentos de 7 de outubro.
Ao falar sobre seu processo de recuperação, Rafael destacou a importância do acompanhamento psicológico, iniciado apenas quatro dias após o atentado, e do apoio de amigos e familiares. Ele contou que chegou a realizar uma sessão de terapia no próprio bunker onde havia ficado preso e que, durante o atendimento, um míssil caiu nas proximidades. A reação do psicólogo, que também admitiu sentir medo, foi fundamental para que se sentisse acolhido. “Quanto mais você fala, mais você se cura”, afirmou, ao defender que compartilhar experiências traumáticas pode ajudar a diminuir seu impacto emocional.
O psicólogo Noam Kramer trouxe à conversa uma perspectiva sobre os impactos psicológicos do 7 de Outubro, ampliando o debate para além da experiência individual de Rafael. Entre os temas abordados estiveram o trauma coletivo vivido pela comunidade judaica, inclusive na diáspora, e a transmissão geracional de experiências traumáticas. A discussão também destacou como acontecimentos dessa magnitude podem afetar emocionalmente pessoas que não estiveram diretamente expostas à violência, mas que compartilham vínculos históricos, familiares e identitários com as vítimas.
Outro ponto importante da conversa foi o papel do acolhimento na recuperação emocional. O debate ressaltou que as consequências de um trauma não dependem apenas da violência vivida, mas também da maneira como o sofrimento é reconhecido e acolhido posteriormente. Nesse contexto, Rafael relatou situações em que se sentiu julgado ou incompreendido, inclusive dentro da própria comunidade judaica. A conversa reforçou a importância da escuta, do acompanhamento psicológico e da construção de espaços seguros para compartilhar experiências, além da necessidade de superar o tabu em relação à terapia, especialmente entre as gerações mais velhas.
Rafael também fez um apelo à união comunitária e à responsabilidade individual. Para ele, a solidariedade demonstrada imediatamente após os ataques precisa se transformar em atitudes permanentes de cuidado e respeito. “Cicatrizar não é esquecer; é se curar vivendo com o trauma”, afirmou. Na mensagem dirigida especialmente aos jovens, ele incentivou o público a viver com autenticidade, assumir responsabilidades e valorizar as pessoas próximas. “Se eu mudar uma pessoa, fiz minha parte”, declarou, ao explicar que sua missão vai além de contar o que viveu: é contribuir para tornar o mundo melhor.
O Diálogos – Ciclo de Encontros da CIP é uma realização da Congregação Israelita Paulista (CIP), com apoio do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, e patrocínio de Itaú, Bemol, Rosset, Banco Safra, Tricostyl, Smart Storage e Aurora.




















