Shavuót: Memória, Presença e Continuidade | Laura Feldman

Shavuót ocupa um lugar curioso no calendário judaico. É uma das festas mais centrais da tradição e, ao mesmo tempo, uma das menos marcadas por símbolos externos. Não há sucá, não há matsá, não há shofar. O centro da festa é outro: um povo reunido para ouvir.

Na manhã de Shavuót, lemos os Asséret Hadibrot, os dez mandamentos, ou dez pronunciamentos, quando revivemos a entrega da Torá no Sinai.

A tradição judaica aproxima esse momento de outro grande instante da narrativa bíblica: Shirat Haiam, a Canção do Mar. A abertura do mar representa a salvação física do povo e a saída da escravidão. O Sinai representa aquilo que veio depois. O povo já estava livre do Egito, mas ainda precisava se reunir e ouvir para descobrir o que fazer com a própria liberdade.

É justamente nesse espaço que a Torá entra. A Torá transforma um grupo de escravos libertos em uma comunidade ligada por responsabilidade, memória e compromisso.

O Midrash diz que a revelação no Sinai não ficou presa ao passado. O Sinai não pertence apenas à memória judaica. Ele pertence à experiência judaica. A voz divina continua viva desde então.

A identidade judaica não nasceu apenas de uma origem comum, de uma terra ou de uma língua. Ela se consolidou ao redor de uma aliança coletiva e de uma missão transmitida entre gerações.

O pensador Abraham Joshua Heschel escreveu que o que preservou Israel ao longo dos séculos foi a capacidade de manter viva uma memória e uma tarefa moral. Justamente por isso, tantos atos de antissemitismo tentam atingir justamente a continuidade judaica: suas escolas, seus livros, sua memória, sua legitimidade de existir e transmitir valores.

Por isso Shavuót acaba trazendo uma pergunta que continua atual em todas as gerações: como fazer com que a herança judaica permaneça viva sem se transformar apenas em hábito automático ou lembrança distante? Como transformar herança em presença?

Diante do Sinai, o povo respondeu: “Naassê venishmá” “Faremos e compreenderemos” (Shmot 24:7)

Para mim, a ordem das palavras importa. Primeiro o compromisso. Depois o entendimento.

Há experiências na vida judaica que só podem ser compreendidas plenamente depois de serem vividas por dentro. O estudo, a prática, a comunidade, a mesa de Shabat, as perguntas repetidas ao longo dos anos. Nem tudo começa com certeza absoluta. Muitas vezes começa antes mesmo de entendermos por que aquilo importa.

Continuar estudando. Continuar aparecendo. Continuar sentado à mesa mesmo em períodos de dúvida, cansaço ou fragmentação.

Por isso o tema do nosso Ticun de Shavuot será “Da fé à presença”.

Vivemos um tempo de distração permanente. As pessoas acompanham tudo e, ao mesmo tempo, estão ausentes de quase tudo. Conversas são interrompidas por telas. Relações ficam superficiais. Comunidades se tornam frágeis. Até a escuta virou algo raro.

Nesse contexto, estudar Torá juntos ganha outro peso.

“Quando duas pessoas se sentam juntas e há entre elas palavras de Torá, a Presença Divina repousa entre elas.” (Pirkei Avot 3:2)

Duas pessoas sentadas em volta de um texto judaico já estão fazendo algo contracultural. Estão desacelerando. Estão escutando. Estão dividindo atenção, memória e linguagem comum.

Talvez seja também por isso que Shavuót tenha sustentado tanto da continuidade judaica ao longo da história. No Egito, os hebreus compartilhavam sofrimento. No Sinai, passaram a compartilhar responsabilidade.

Que neste Shavuót possamos nos reunir mais uma vez em torno da Torá, do estudo e uns dos outros.

Chag Shavuót Sameach!

Laura Feldman

Presidente da Congregação Israelita Paulista