Sonhos
“José sonhou um sonho” (…) – “Ouçam o sonho que sonhei!” [Gen. 37:5]
Na Parashat Vaieshev, a narrativa se abre com uma frase simples, mas carregada de potencial: “Yossef sonhou um sonho” (v. 5). Ainda adolescente, Yossef compartilha sua visão com entusiasmo: “Ouçam o sonho que sonhei!” – imaginando-se um líder. Mas a reação imediata é dolorosa: seus irmãos o odeiam por isso, ecoando uma frase que hoje poderíamos categorizar como bullying: “hine baal hachalomot” – “lá vem o mestre dos sonhos” (v. 19). Seu pai, Yaacov, expressa um estranhamento frente ao conteúdo do sonho, ao mesmo tempo em que preserva o relato no coração (v. 11) – um misto de proteção e ambivalência. Essa história nos convida a refletir: como escutamos os sonhos das nossas crianças e jovens? Como, inadvertidamente, os sufocamos – seja por ciúmes, medo ou expectativas? E como lidamos com os sonhos alheios? Nós os transformando em pontes ou barreiras?
Os sonhos de Yossef eram aspirações profundas, vislumbres de um futuro que desafiava o status quo da estrutura social da época. Hoje, como educadores e pais, somos chamados a ir além: a interpretar esses sonhos como sementes de autonomia, sem projetar nossas inseguranças. Sufocá-los com críticas ou indiferença pode gerar ressentimento e baixa autoestima, transformando aspirações em traumas não resolvidos. Mas escutá-los com empatia constrói resiliência e laços seguros.
No entanto, Yossef não se destaca apenas pela capacidade de sonhar. Associada a ela está também a sua prontidão. Quando Yaacov o envia aos irmãos que pastoreavam as ovelhas, sua resposta é imediata: “Hineni” – “Eis-me aqui” (v. 13). Não um “sim” relutante, mas uma presença plena, um “eu estou aqui, pronto para servir”. Em hebraico, “hineni” ecoa a disponibilidade de Avraham e Moisés ao chamado divino, simbolizando não uma obediência passiva, mas um engajamento genuíno. Para crianças, ensinar “hineni” significa cultivar não só sonhos, mas a coragem de respondê-los, escutando o chamado do mundo com coração aberto.
Que cada um(a) de nós possa dizer “hineni” ao que vem das nossas crianças e jovens, escutando seus sonhos com gentileza, honrando-os como profecias de um futuro compartilhado. Pois, como Yossef, seus sonhos podem ser a salvação e a elevação da comunidade.
Shabat Shalom!
Rabina Kelita Cohen
