Nesta semana, quando finalmente recebemos de volta o corpo de Ran Gvili z”l, o último refém sequestrado pelo Hamás, sentimos coletivamente que deixamos um tipo de cativeiro. Após 843 dias, 12 horas e 6 minutos, o relógio da Praça dos Reféns em Tel Aviv se apagou, marcando simbolicamente o fim de um capítulo de opressão que nos foi imposto desde o 7 de outubro.
Este sentimento de libertação encontra eco profundo na Parashat Beshalách que lemos nesta semana, conhecida também como Shabat Shirá – o Shabat da Canção, por conter o Shirat HaYam (Canto do Mar) e o canto de Débora na haftará.
“Agora que o faraó deixou o povo ir… Moisés levou consigo os ossos de José.” [Êxodo 15:17-19].
O versículo que abre nossa parashá traz uma imagem poderosa: mesmo na libertação, carregamos conosco os ossos do passado. Ran Gvili z”l retorna a nós não como um refém vivo, mas como ossos que testemunham o custo da liberdade. Assim como José pediu que seus ossos fossem levados da escravidão para a terra prometida, nós cumprimos o imperativo sagrado de pidión shvuím – o resgate dos cativos, tanto os vivos quanto os caídos.
A tradição judaica considera pidión shvuím uma “mitsvá rabá” – uma grande mitzvá. O Talmud (Bava Batra 8b) ensina que o cativeiro é pior que a fome e a morte. Maimônides vai além: quem ignora o resgate de um cativo transgride mandamentos como “não endurecerás teu coração” [Deuteronômio 15:7] e “não ficarás de braços cruzados ante o sangue de teu irmão” [Levítico 19:16].
A saída do Egito não representa que a liberdade está dada, mas que se abre uma possibilidade diária para conquistá-la. O povo, ao deixar a escravidão, se depara com um mar de águas (o Mar dos Juncos), e atrás os exércitos do Faraó. A liberdade não é um estado alcançado, mas um processo contínuo de travessia.
Como observa Naomi Graetz em sua reflexão contemporânea sobre Beshalách, Deus não levou o povo pelo caminho mais curto, o caminho da terra dos filisteus, pois Deus disse: ‘O povo pode se arrepender quando vir guerra, e retornar ao Egito'” [Êxodo 13:17]. A liberdade exige coragem para enfrentar o desconhecido.
Mesmo quando parece não haver saída – um mar à frente, exércitos atrás – sempre há uma maneira de seguir adiante. Às vezes essa maneira exige uma intervenção na natureza, como a abertura do mar. A travessia do Yam Suf nos ensina que os obstáculos aparentemente intransponíveis podem se abrir quando avançamos com coragem e determinação.
Na travessia, vivenciamos uma dualidade: por um lado, a esperança pela possibilidade que se abre; por outro, o medo de ser engolido pelas águas. É aqui que entra a lição de Miriam: a alegria pode afugentar o medo e nos conduzir em seco a lugares seguros. Miriam pegou seu pandeiro e liderou as mulheres em canto e dança no meio da travessia, não depois dela concluída.
Para nossa comunidade que completa 90 anos, a metáfora da travessia é especialmente significativa. Assim como os israelitas no deserto, percorremos nosso próprio caminho através de gerações, mantendo viva a tradição enquanto nos adaptamos aos novos tempos.
A CIP e todo o povo de Israel, como o povo no deserto, carrega consigo as memórias dos que partiram, as lições das dificuldades superadas e a esperança pelo que virá. A travessia de 90 anos nos ensina que cada geração tem seu mar para atravessar, seu faraó para enfrentar, seu canto para entoar.
Shabat Shirá Shalom!
Rabina Kelita Cohen
