Há uma pergunta silenciosa atravessando as leituras da Torá desta semana:
o que realmente nos define?
Behar fala sobre posse e limites.
Sobre a terra, o trabalho, o descanso e o direito de se reciclar e recomeçar.
E, pouco a pouco, a Torá vai deslocando nosso olhar daquilo que temos para aquilo que somos.
“A terra não será vendida para sempre, porque a terra é Minha; vocês são apenas estrangeiros e residentes Comigo.”
(Vaikrá 25:23)
É uma frase contundente.
Um golpe de realidade para tomarmos consciência de que nem sempre somos o centro absoluto da existência.
E que, quando pensamos a vida apenas dessa forma, talvez percamos muito mais do que ganhamos.
A terra não nos pertence completamente.
O tempo não nos pertence completamente.
E a sensação de controle absoluto sobre a vida talvez seja apenas isso: uma sensação que, cedo ou tarde, se revela efêmera.
Talvez por isso a leitura introduza a Shemitá: o sétimo ano de descanso da terra.
Um convite que soa quase como uma utopia: interromper a produção constante, parar nossa marcha e lembrar que também existe valor quando soltamos um pouco o controle e nos entregamos à experiência de viver com menos domínio e um pouco mais de fé.
A proposta da Torá é profundamente contraintuitiva.
Existe santidade também na pausa.
Existe dignidade no limite.
Existe espiritualidade em reconhecer que nem tudo pode ser controlado pelas nossas mãos.
E que, muitas vezes, quanto mais compartilhamos, mais recebemos.
Que, quando uma sociedade perde a capacidade de enxergar o outro, de respeitar ritmos, vínculos e responsabilidades, acaba produzindo danos que às vezes se tornam irreparáveis.
Talvez a espiritualidade comece exatamente aí:
quando deixamos de perguntar apenas “o que eu conquistei?”
e voltamos a nos perguntar no que estamos nos tornando.
Porque viver não é apenas produzir, possuir ou controlar.
É reaprender a habitar o mundo com mais humildade, mais presença e mais consciência de que pertencemos uns aos outros — e também a algo infinitamente maior do que nós.
Shabat Shalom!
Rabino Dario Bialer
