E se a resposta que você procura não vier de um “sim” ou “não”, mas do lugar de onde você decide?
Na parashat Tetsavê acontece um deslocamento narrativo dos objetos – e toda a descrição quase exaustiva dos utensílios do Mishkán – para os indivíduos que deve conduzir o serviço sacerdotal. E nesse deslocamento, surgem dois elementos com características quase oraculares, mágicos, que parece dar as respostas prontas a tudo. Esses elementos são chamados de Urim e Tumim.
“Quando entrar no santuário, Aarão carregará os nomes dos filhos de Israel no peitoral da decisão… e dele você porá os Urim e Tumim, para que fiquem sobre o coração de Aarão…” [Êx. 28:29-30]
Qual era a função dessas pedras? A Torá vai nos revelar seu uso mais adiante, como por exemplo, por meio delas, a decisão sobre ir ou não à guerra era deliberada (Nm. 27:21). Uma pergunta objetiva era feita, e se as luzes se acendessem, a resposta divina era positiva. Caso contrário, o comentário de G. Plaut é que, “aparentemente, o silêncio divino era interpretado como um ‘não’ (1Sm 14:36-37; 28:6)”.
Alguém poderia pressupor que a tomada de decisão era divina. Mas não é assim que a tradição judaica lê essa passagem. A decisão é sempre humana, mas ela é tomada à luz de um fundamento que nos permite fazer boas escolhas.
Novamente a nossa tradição privilegia a responsabilidade humana sobre o cumprimento cego à determinação de um oráculo. Levar essas pedras sobre o coração é também uma maneira de convocar a sensibilidade no julgamento. Somos seres racionais, e julgamos as situações que se nos apresentam a partir da nossa intelectualidade, mas Urim e Tumim nos convidam a ir além: é preciso trazer também o coração para as decisões importantes na vida.
Por sermos o povo do livro, muitas vezes as pessoas veem o judaísmo como uma religião da racionalidade – e o Talmud ajuda a reforçar essa ideia, pela força da argumentação presente na construção do judaísmo rabínico. Mas é o coração (a última e a primeira letra da Torá) que fecha e abre o seu texto e coloca nela um selo.
Ao término deste Shabat, entraremos no espírito de Purim. E com a leitura da Meguilat Ester, vamos nos deparar com “pur”, outra forma de tomada de decisões lançadas à sorte. Uma decisão aleatória que se desresponsabiliza pelo resultado. Urim e Tumim é o oposto dessas pedras lançadas por Hamán. São pedras que devem permanecer superpostas e conectadas a um coração ético para que atuem como uma bússola moral.
Talvez a mensagem que podemos extrair de Urim e Tumim seja a de que devemos encontrar o equilíbrio entre o que sabemos e o que sentimos, entre a objetividade e a subjetividade, entre a razão e a sensibilidade, tendo os valores que sustentam a nossa tradição como um farol que sinaliza a nossa ação no mundo.
Shabat Shalom!
Chag Purim Samêach!
Rabina Kelita Cohen
