O Custo da Liberdade | Parashat Bô | Pelo convidado Daniel Ávila

Ao celebrarmos os 90 anos da CIP, queremos que esse marco seja vivido com toda a comunidade, fortalecendo aquilo que sempre nos sustentou: o estudo da Torá. Por isso, convidamos diversas pessoas que fazem parte desses 90 anos de história para escreverem alguns comentários da Torá ao longo do ano. Este é um deles.

Mas esse é também um convite para você, para se engajar ainda mais no estudo da Torá durante este ano tão especial. Afinal, são as vozes diversas, vindas de diferentes trajetórias e sensibilidades, que tornam nosso aprendizado mais rico, ajudam a contar nossa história e nos permitem refletir sobre o futuro da CIP a partir de múltiplas perspectivas. Queremos convidar você a fazer parte dessa história, engajando-se em alguma das inúmeras oportunidades de estudar conosco.

Esta semana, a Torá nos narra as últimas três pragas que Deus enviou ao Egito, que forçam o Faraó a finalmente concordar, ainda que hesitante, em libertar o povo hebreu. As duas primeiras são os gafanhotos que cobrem toda a face da terra e destroem as plantações, e a escuridão absoluta que se espalha e penetra os lares egípcios.

Esse longo e penoso processo de negociação entre Moshe e o Faraó culmina com uma ameaça terrível: Deus enviaria um anjo para tirar a vida de todos os primogênitos da terra do Egito, humanos e animais. Deus instrui os hebreus a sacrificarem cordeiros e pintarem os batentes de suas portas com o sangue animal — esse seria o sinal para que Deus poupasse as famílias hebreias do desastre da perda. Então, na calada da noite, os hebreus deveriam começar sua caminhada em direção à liberdade.

Assim se inicia o primeiro Pêssach. A etimologia tradicional da palavra Pêssach associa o nome da festa ao verbo hebraico usado nesta parashá, que pode ser traduzido como “passar por cima” ou “poupar” — porque nossos antepassados foram poupados da praga mais cruel de todas, a de ter um filho morto por vontade divina. No Sêder de Pêssach, enquanto cantamos e celebramos nossa liberdade, lembramos também que as pragas levaram morte e destruição ao povo egípcio, que nada tinha a ver com os desmandos e a tirania do Faraó. Um midrash conhecido nos conta que, ao ver anjos celebrando a morte dos egípcios, Deus os reprime veementemente. Afinal, também os egípcio são Sua Criação. Assim, em um gesto de compaixão, ao recitar o nome de cada uma das pragas, retiramos um pouco de vinho de nossas taças, temperando a alegria da festa com o pesar de entender que tanto sofrimento alheio foi necessário para nossa libertação.

Um tema ressoa através das gerações de nossos patriarcas: os primogênitos não costumam ser quem sai por cima da história. Avraham, Itzchak, Iaacov: nenhum deles era o mais velho dentre seus irmãos e, com mais ou menos justiça, mais ou menos trapaça, é através deles que nos foi herdada essa tradição espiritual. Ou seja, descendemos do próprio inconformismo com as estruturas herdadas.

Também no Egito da Torá, a desigualdade e a hierarquia sociais eram mantidas através da primogenitura: o Faraó era o filho mais velho de um filho mais velho de um filho mais velho… Quando Deus decreta a morte dos primogênitos, ele também está nos ensinando, simbolicamente, a questionar o que parece certo e duvidar da naturalidade de situações e privilégios. Mas não se chega à liberdade esperando de braços cruzados: é preciso ação para transformar. E a transformação verdadeira dá medo, dói, exige perder certezas e confortos.

Neste shabat, que as palavras da Torá nos inspirem a olhar para nossas próprias certezas e agir sobre elas com força e determinação críticas, mas envoltas pela mesma compaixão divina que sabe que o crescimento só vem com muito esforço.

Shabat Shalom!