Será que é possível estar tão perto de Deus a ponto de se tornar ausente para o mundo?
A parashá Acharei Mot abre com uma advertência intrigante, lembrando a morte dos filhos de Aarão, Nadav e Avihu, que “morreram por se aproximar demais da presença do Eterno” (Lev. 16:1). À primeira vista, a afirmação parece paradoxal. Afinal, não é a proximidade com o Divino o objetivo máximo de toda vida espiritual?
No entanto, a Torá nos alerta para o perigo do entusiasmo desmedido. Uma devoção que busque tanto estar perto do divino e se esquece de manter os pés firmes na terra pode levar à morte, no sentido de uma renúncia à sua vida. A tragédia desses jovens sacerdotes (cohanim) sugere que uma espiritualidade que nos desconecta das responsabilidades humanas e do cuidado com o próximo não é santidade, mas um autoequívoco espiritual.
A chave para entender esse limite está na própria língua hebraica. A palavra para sacrifício, korbán, compartilha a raiz com karov (próximo) e hikriv (aproximar). O ensinamento da Torá parece ser que, em momentos determinados, devemos buscar essa aproximação, mas não todo o tempo. O propósito de Levítico não é o ritual pelo ritual, mas o estabelecimento de um protocolo de intimidade segura.
Quando avançamos para a parashá Kedushim, recebemos o antídoto para o excesso de Nadav e Avihu. O mandamento “Sereis santos, porque Eu, o Eterno, vosso Deus, sou santo” (Lev. 19:2) não é seguido por instruções de isolamento meditativo, mas por leis sobre deixar para o necessitado a produção que está às bordas do nosso campo, não roubar, não mentir e, culminando no famoso, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
A mensagem que emerge destas parashiot combinadas é clara: a verdadeira busca pelo Divino deve nos tornar mais humanos, e não menos. Se a nossa espiritualidade nos absorve a ponto de não vermos as “pessoas concretas” ao nosso redor, estamos “morrendo” por excesso de proximidade.
Sacralizar a vida (fazer um korbán) significa pegar o que temos de mais elevado e trazer para o chão da existência. O propósito de se aproximar de Deus é retornar ao mundo com mais sensibilidade para cumprir nossa responsabilidade com o outro.
Que o olhar para o texto e para dentro de nós nos aguce o desejo e o compromisso de olhar à nossa volta, para a comunidade e suas necessidades, com uma sensibilidade renovada.
Shabat Shalom!
Rabina Kelita Cohen
