Qual é o segredo da proximidade? Desde nossa constituição como povo, recebemos instruções de como nos aproximarmos de Deus. A parashá desta semana começa com Vaicrá – “E Deus chamou…” (Lev. 1:1) – mostrando que Deus também se aproxima do humano. Desde uma via ou de outra, o objetivo é o encontro.
A palavra hebraica para sacrifício, korbán, vem da raiz קרב, “aproximar”. Os diferentes tipos de oferta representam modos distintos de busca pela proximidade: a olá (entrega integral), a minchá (fruto da terra e do trabalho), o zêvach shelamim (partilha e comunhão), a chatat (purificação) e a asham (reparação). Cada uma expressa uma forma de restaurar a proximidade com Deus ou com nosso semelhante.
Aqui aparece um dos pontos mais belos de Vaicrá: para a restauração do equilíbrio, a Torá leva em conta a condição da pessoa. Em Levítico 5, a gradação é explícita: se uma pessoa é encontrada culpada, deve reconhecer a culpa e trazer uma ovelha para reestabelecer a ordem social; quem pode traz uma ovelha; quem não pode, traz duas pombas; quem não pode nem isso, traz farinha. A exigência legal não ignora a realidade econômica ou as condições materiais da pessoa. A culpa de duas pessoas pela mesma transgressão é comum a ambas, mas a forma de reparação não é imposta de maneira cega. Isso revela uma ética profunda: a Torá não absolutiza a pena; ela mede a obrigação pela capacidade da pessoa. A responsabilidade continua existindo, mas ela é ajustada à vulnerabilidade concreta do ofertante. Isso revela uma justiça que reconhece limites, contexto e dignidade – e corrige uma leitura cruel da religião. Se korbán significa “aproximar”, então a Torá garante que essa aproximação não seja privilégio de quem tem mais recursos.
Mas o culto sacrificial acabou. Desde a destruição do Segundo Templo, em 70 EC, o sistema de korbanot deixou de ser praticável. O judaísmo rabínico não se limitou a lamentar; realizou uma reconstrução espiritual decisiva, cuja semente já havia plantada na literatura profética: “Eu desejo misericórdia, não sacrifícios” (Oseias 6:6). Em vez de insistir na impossibilidade, estabeleceu uma nova forma de proximidade com Deus. A tefilá torna-se substituta do sacrifício; as boas ações, via de expiação. Rabban Yohanan ben Zakai consola seu discípulo dizendo que ainda possuímos um meio de expiação: os atos de bondade. E em quê os rabinos se baseiam para fazer essa transpolação?
Séculos antes deles, essa verdade foi antecipada por Haná. Enquanto os animais eram oferecidos pelo sacerdote em Shiló, ela derrama o seu coração em oração silenciosa. Seu gesto mostra que o centro da relação com Deus não está apenas na oferenda externa, mas na interioridade. Haná ensina que a pessoa humana pode comparecer diante de Deus com a inteireza da alma. Quando o altar desaparece, a voz de Haná permanece.
Vaicrá apresenta um sistema de aproximação mediado por ofertas, mas a tradição bíblica e rabínica conduz essa lógica para outro lugar. A Torá já humaniza a exigência ritual ao medir a oferta pela capacidade da pessoa. Depois, a história judaica desloca o eixo da relação com Deus do altar para a reza, da vítima para a palavra, do rito sacrificial para a misericórdia e as boas ações.
Assim, voltamos à pergunta inicial: ‘Qual é o segredo da proximidade?’ A resposta que Vaicrá oferece, ampliada pela atitude de Haná, é que a proximidade com Deus depende de uma entrega. Ela depende da disposição de se oferecer: confessar, reparar, rezar, agir com misericórdia, partilhar, derramar o coração. Se antes o korbán aproximava por meio da oferta, agora a aproximação acontece por meio da tefilá, do estudo e de atos de justiça.
Shabat Shalom!
Rabina Kelita Cohen
