Parashat Ki Tissá | Pelo convidado André Roemer

Ao celebrarmos os 90 anos da CIP, queremos que esse marco seja vivido com toda a comunidade, fortalecendo aquilo que sempre nos sustentou: o estudo da Torá. Por isso, convidamos diversas pessoas que fazem parte desses 90 anos de história para escreverem alguns comentários da Torá ao longo do ano. Este é um deles.

Mas esse é também um convite para você, para se engajar ainda mais no estudo da Torá durante este ano tão especial. Afinal, são as vozes diversas, vindas de diferentes trajetórias e sensibilidades, que tornam nosso aprendizado mais rico, ajudam a contar nossa história e nos permitem refletir sobre o futuro da CIP a partir de múltiplas perspectivas. Queremos convidar você a fazer parte dessa história, engajando-se em alguma das inúmeras oportunidades de estudar conosco.

A Parashat Ki Tissá descreve um momento decisivo da jornada no deserto, após uma fase marcada por manifestações extraordinárias da presença de Deus, como milagres, fenômenos naturais e sinais grandiosos que confirmavam Sua existência. Com o passar do tempo, essas revelações dão lugar a uma rotina de rituais, sacrifícios e normas que estruturam a convivência e sustentam a sobrevivência durante quarenta anos no deserto. Surge então uma questão central: o deserto é apenas geográfico, ou reflete também a condição interior da alma humana?


Enquanto Moisés recebe instruções divinas no alto do Monte Sinai sobre rituais e práticas que expressam materialmente a vontade de Deus, o povo, ao pé do monte, sente o impacto de sua ausência prolongada por quarenta dias. A inquietação e o vazio emocional levam à demanda por um bezerro de ouro, rapidamente confeccionado por Aarão na tentativa de manter a ordem até o retorno de Moisés. Deus, então, ordena que Moisés desça, pois o povo havia se desviado. Ao ver o ídolo, Moisés destrói o bezerro e as tábuas recém-recebidas, escritas pela mão de Deus punindo parte do povo e revelando a tensão entre um ideal divino e a realidade humana imperfeita. Essas tabuas representariam um projeto de humanidade impossível, utópica!


Após restaurar a ordem, Moisés permanece na base do monte, experimentando o mesmo sentimento de vazio que dominara o povo. Persistente em sua busca pela verdade, intercede pelo povo e questiona a presença divina, expressando seu desejo profundamente humano de ver e sentir Deus de forma tangível. Ele clama: “Mostra-me tua glória”. A resposta divina afirma que nenhum ser humano pode ver Sua face e viver, mas Deus permite que Moisés testemunhe o incompreensível, vendo apenas as “costas” do divino, um momento efêmero que simboliza tanto proximidade quanto limite no encontro com o sagrado.


A narrativa contrasta dois tipos de busca pela glória: a busca imediatista e ilusória, representada pelo bezerro de ouro, e a busca pelo divino, cuja essência permanece inalcançável e transcendente. Introduz se também a ideia do tempo como expressão da ação divina: um processo lento, constante, que revela a verdade apenas a quem persevera.
As segundas tábuas, desta vez escritas pela mão humana sob inspiração divina, desta vez na base do monte, entre os humanos, trazendo um projeto mais realista: um projeto de humanidade possível, com parceria entre Deus e o homem, que dialoga com a condição humana e constrói um caminho possível de crescimento mútuo.


Em síntese, Ki Tissá ensina que a verdade e a glória não se revelam em eventos espetaculares, mas no comprometimento cotidiano com tradições, leis e práticas que sustentam nossa identidade desde o início da história. É o tempo, esse companheiro incansável, que educa, revela e conduz o ser humano ao encontro mais profundo consigo mesmo e consequentemente com o divino.


Shabat Shalom

André Roemer, membro do conselho deliberativo e do grupo de estudos da Parashá da CIP