Por que eu existo? | Parashat Toldot | Rabina Kelita Cohen

Uma revolução interior convulsionava Rivcá, a tal ponto de ela questionar a razão da própria existência. 

Láma zé anochi?

Por que eu existo? – indagou Rivcá.

[Gen. 25:22]

A pergunta hebraica “לָמָּה זֶּה אָנֹכִי” (lama zé anochi) não é meramente “por que isso está acontecendo comigo?”, mas literalmente: “Por que isto sou eu?”. Trata-se de uma questão existencial.

Rashi interpreta essa expressão como “qual é o propósito de minha vida?”. Rambam, por sua vez, a lê como um ato de busca ativa de sentido. A verdadeira existência não é meramente ser, mas ser responsável. 

Rivcá descobre, em seu corpo convulsionado, que existir significa carregar em si a responsabilidade pelos outros. ‘Kol Israel arevim zé ba’zé’ – todos somos responsáveis uns pelos outros [Talmud, Shevuot 39a]. 

A pergunta de Rivcá não é ingênua, mas ética. Ela existe porque os gêmeos em seu ventre existem. E aqui encontramos o olhar da filosofia judaica moderna, pelas lentes de Emmanuel Levinas, que sugere que é no encontro com a alteridade (o outro em seu corpo) que a ética emerge.

O corpo transcende a existência física e adquire status de locus de uma existência que é, antes de tudo, ética. Enquanto as escolhas de Rivcá até aquele momento impactavam apenas a si mesma, ao sentir a animosidade que emerge da pluralidade de seres que compartilham um mesmo espaço, ela se coloca em uma posição de corresponsável pelos destinos de ambos. 

Nesse sentido, talvez pudéssemos traduzir a pergunta de Rivcá não como  ‘por que sou?’ ou ‘por que existo?’ mas ‘por que sou responsável por isto?’. 

Existimos não porque haja razão para isso, mas porque há outros cuja existência está ligada às nossas.

A mulher que pergunta ‘por quê’ não se coloca passiva e contemplativa frente ao que acontece tanto em seu entorno quanto dentro de si mesma. Ela carrega em si a essência judaica da pergunta. Muito mais do que esperar de Deus uma resposta, Rivcá faz a roda da pergunta girar. Sua pergunta é seu ato mais profundo de humanidade. Sua pergunta é ato de apropriação de si mesma. 

E nós, qual é a pergunta que carregamos em nossos corpos e ainda não ousamos enunciar?

Que o questionamento da matriarca nos inspire a reconhecer que não existimos sozinhos, porque – quer em nossos corpos, quer nas nossas escolhas ou mesmo nas nossas dúvidas – há sempre outros cujas vidas estão entrelaçadas às nossas. 

Que a pergunta que emerge de dentro nos deixe saber que responsabilidade não é fardo imposto de fora, mas uma descoberta interior de que somos uns pelos outros. Porque cada um de nós não carrega apenas a si mesmo, mas carrega o potencial de libertar outros através de sua coragem de questionar e de existir plenamente.

Shabat Shalom!

Rabina Kelita Cohen