Quando a alma resiste ao chamado, e ainda assim responde | Parashat Shemot | Rabino Dario Bialer

Moshê está diante de algo sublime que nenhum ser humano pode provocar por si mesmo: Deus Se revela a ele. Isso não é algo que se escolhe.


Diante do fogo imponente que arde sem se consumir, e dentro dele a voz. Uma voz que quase nenhum mortal escutou. Deus o chama pelo nome: Moshê. E, embora ele se faça presente, o comportamento do nosso grande líder surpreende. Diante de uma revelação grandiosa, Moshê hesita. Recua. Busca desculpas para se esquivar e sair de cena.


A Torá não esconde isso. Pelo contrário, coloca essa hesitação no centro da narrativa, como se quisesse nos ensinar que os momentos mais sagrados da vida nem sempre são os mais confortáveis. Muitas vezes, é justamente aquilo que nos desinstala -que nos arranca dos lugares onde aprendemos a nos proteger- que carrega o chamado do propósito da vida.


Moshê vê o fogo, ouve a voz, sente o solo tornar-se sagrado. Tudo nele reconhece que este é um instante único. Ainda assim, quando a revelação se transforma em missão, seu coração recua. “Quem sou eu?”, ele responde. Essa pergunta não é fraqueza. É verdade. É a alma reconhecendo o peso do que está sendo pedido. O verdadeiro chamado divino sempre nos leva além da imagem limitada que temos de nós mesmos, e talvez por isso nos assuste tanto.


Deus lhe pede que abandone as proteções construídas ao longo da vida. Quando Moshê se refugiou no deserto, buscava silêncio, anonimato, esquecimento. Agora, Deus o chama de volta à dor da própria história.


Quando Deus fala do sofrimento do povo, Moshê escuta com empatia. Ele conhece essa dor, não no corpo, mas na memória. Ele viu os tormentos dos escravos, testemunhou a injustiça. Agora está diante da possibilidade de remediar essa dor e mudar o destino de centenas de milhares. Isso parece um sonho. Mas quando a missão ganha nome: “Eu te enviarei ao Faraó”, algo se fecha dentro dele. Não por falta de fé, mas por excesso de consciência. Ele se sente pequeno e não consegue responder de imediato.


E aqui está a genialidade de Deus. Ele não o apressa. A conversa se estende, como se desse espaço para que o coração humano respirasse. “Eu estarei contigo.” Deus não promete ausência de medo nem força ilimitada. Promete presença.


Ainda assim, Moshê teme não ser ouvido. Pergunta como falar de Deus a um povo machucado e desconfiado. Deus responde com um Nome que não se explica, apenas se vive: Ehyeh Asher Ehyeh . Sou, estou, serei, estarei. Um Deus que não se impõe, mas caminha junto. Uma fé que não promete controle, mas companhia. Deus não diz “tudo será fácil”. Diz apenas: “não estarás só”.


E o medo permanece. E Deus permanece também. Escuta, responde, sustenta. Talvez este seja um dos maiores ensinamentos dessa história: Deus não silencia a voz humana cheia de temor. Ele a acolhe.


No fim, Moshê aceita. Não porque o medo desapareceu, mas porque compreende que é possível caminhar pela vida com dúvidas. Ele vai com o coração tremendo, mas vai. E assim começa o Êxodo, a maior caminhada da história.


Deus continua chamando pessoas imperfeitas para tarefas sagradas. Isso é belíssimo. Tão humano e tão divino. A fé verdadeira não nasce da certeza absoluta, mas de passos dados com honestidade. Deus não procura pessoas prontas. Procura corações disponíveis. E, às vezes, o “sim” mais sagrado é aquele dito com a voz embargada pela emoção e o coração aberto para a vida.

Shabat Shalom!