Quando a bênção deixa de ser privilégio e vira cuidado | Parashat Vaiechi | Rabina Kelita Cohen

O livro de Bereshit chega ao seu final com a Parashat Vayechi. Ao longo desta narrativa, desde a primeira dupla de irmãos – Caim e Abel – passando por Ismael e Itzhak, Esav e Yaacov, até José e seus irmãos, uma mensagem latente parece ser transmitida de geração em geração: a de que a bênção é um recurso limitado e que, para um ser escolhido, o outro deve ser preterido.

E a consequência dessa conduta parental é o desenvolvimento de relações entre irmãos marcadas por rivalidade e desafeto.  “Acaso sou eu guardião do meu irmão?” – bradou Caim ao ser indagado sobre o paradeiro de Abel [Gen. 4:9]. Essa mesma carência de cuidado fraternal, gerações depois, levará Yossef ao fundo do poço, vítima do ciúme daqueles que deveriam protegê-lo. 

E nos últimos momentos da vida de Yaacov, o vemos repetir o estigma familiar, escolhendo um filho em detrimento dos outros e colocando sobre ele o peso da primogenitura. 

Nos momentos finais de sua vida, vemos Yaacov repetir esse padrão ao abençoar os filhos de José, Efraim e Menashé. Ao inverter as mãos e priorizar o mais novo, ele reativa o trauma da preferência. José, ao perceber que a “maldição” da inimizade está prestes a ser herdada por seus filhos, sente um profundo mal-estar: “Vayera be-einav” — isso caiu mal aos seus olhos [Gên. 48:17].

Or HaChaim, comentarista da Torá do séc. XVIII, sugere que o mal-estar de José não era técnico, mas empático. Ele temia que o ciúme fragmentasse sua descendência, repetindo o trauma que ele próprio viveu. Contudo, com a maturidade de quem transformou o luto em liderança, José decide renunciar à vingança. Ele escolhe não apenas perdoar, mas compartilhar a bênção, quebrando o ciclo da escassez.

A Rabina Tali Adler interpreta que José muda os padrões relacionais para permitir o nascimento de uma nação. Ao acolher seus irmãos, ele finalmente responde de forma afirmativa ao clamor de Caim: “Sim, eu sou o guardião dos meus irmãos!”. Ele compreende que o protagonismo real não está em ser o preferido do pai, mas em ser o protetor do grupo.

Esta é talvez a essência do encerramento de Bereshit: ser judeu não é apenas escolher e ser escolhido, mas decidir cuidar daqueles que caminham ao nosso lado. É transformar a preferência em responsabilidade coletiva. Afinal, como ensina o Talmud [Shevuot 39a], “kol Israel arevim zé ba’zé” – “todos somos responsáveis uns pelos outros”.

Que assim como, ao chegar ao final do livro de Bereshit, foi possível reorientar o curso da história familiar, que o ano de 2026 que se inicia possa nos mostrar caminhos de cuidado e escuta. Que saibamos transformar nossos privilégios em ferramentas de proteção mútua, garantindo que ninguém seja preterido na construção da comunidade que queremos ser. 

Que tenhamos todos um ano abençoado!

Shabat Shalom!