Perenidade

“Qual a vantagem do sábio sobre o ignorante… do empenhado sobre o preguiçoso, do ser humano sobre o animal… um mesmo fato acabará com todos e nada será lembrado… antes, o depois, tudo será reduzido a pó…”.Assim se lamenta o livro de Kohelet que é lido no Shabat de Cucot uma vez que o festival de consciencias e planos das Grandes Festas acabou e voltamos à realidade.

Na minha opinião, o intuito desse texto é desafiar o leitor a demonstrar que é possível viver de tal modo que ele não tenha razão. Além da memória que podemos manter de entes queridos e de pessoas admiradas, por um lado, e da esperança de sermos lembrados também, acredito que existem nas nossas fontes dois modelos de transcendência. Um na meguilat Esther. O outro, na parasha da semana.

Na Meguilá, Mordechay sugere que se Esther não intervir para salvar o povo de Israel da ameaça de Hamman, este sobreviverá de algum outro modo, mas ela terá perdido a oportunidade de realizar o sentido de sua história e de sua existência individual. Ou seja, haveria um modo de transcender nossa vida pequena e curta  que consistiria em fazer uma diferença pessoal, única, que poderia ficar marcada.

Na parasha desta semana, Moisés se encontra diante de sua morte, que o afastará definitivamente da histúria que ele mesmo escreveu. Justamente no momento da grande culminação: a entrada na Terra Prometida. O Talmud sugere entre outras respostas que desse modo Moisés permitiria o crescimento do judaísmo. Ou seja a morte  de Moisés seria o nascimento de um povo que se autorregula com sua própria interpretação infinita do legado. Para isso, o líder que detém o legado precisa sair da cena.

 

A morte não seria um castigo e sim uma redenção, renascimento. Não de Moisés, claro, mas sim da história da qual Moisés foi parte tão fundamental.

Uma fonte diz que a forma de transcender é assumindo um papel único que faz diferença e deixa marca. Outra diz que aceitando sermos parte de um tudo muito maior que inclusive precisa de nossa desaparição em algum momento para continuar.

Acredito que ambos tém razão.  O modelo de Ester permite a transcendência do indivíduo; o de Moisés o do coletivo. Na passagem da pureza de Iom Kipur para o realismo de Sucot que possamos interpretar uma e outra vez nosso lugar único no tudo geral.

Shabat Shalom
Rabino Dr. Ruben Sternschein