Um dos grandes desafios que enfrentei em minha trajetória como educador foi responder à seguinte pergunta: como um texto tão antigo como a Torá pode ser relevante e significativo para um jovem de 12 ou 13 anos nos dias de hoje?

O que esse texto milenar, que lemos semanalmente, ainda pode nos ensinar em pleno século XXI?

A Parashá desta semana é Shelách Lechá. A história é relativamente conhecida. O povo está no deserto, prestes a entrar na Terra Prometida. Moisés envia doze representantes das tribos para observar a terra. Ao retornarem, dez deles apresentam um relatório pessimista, afirmando que seria impossível derrotar as poderosas nações que ali habitavam.

Uma das discussões mais interessantes desta porção nos leva a refletir sobre o valor da palavra. O que é dito, como é dito, de que forma é dito e de que forma é ouvido e quer ser ouvido. Em outras palavras: a tal da “disputa de narrativas”. Parece atual?

Nós, seres humanos, somos peculiares. Quantas vezes vivemos a mesma experiência que outra pessoa e, ao comparar impressões, descobrimos interpretações completamente diferentes do mesmo acontecimento?

A realidade é, de fato, bastante elástica. Ela ganha a forma da interpretação que escolhemos atribuir a ela. Nossa atitude, nossas crenças e nossa autopercepção influenciam a maneira como nos relacionamos com o mundo e o significado que damos aos fatos.

Meus filhos estão cansados de me ouvir repetir que devemos nos esforçar para enxergar o copo meio cheio das situações. Procurar a lente do “sim”, do possível, da oportunidade.

Talvez tenha sido justamente isso que faltou aos espiões. A tradição judaica os critica não por terem identificado dificuldades reais, mas por terem substituído a pergunta “Como faremos isso?” por “Será que podemos fazer isso?”.

Os espiões enxergam a mesma terra. Alguns veem possibilidades; outros veem apenas obstáculos. A tragédia da parashá não acontece porque a terra era difícil. Acontece porque faltou confiança para dar o próximo passo.

Neste ano de 2026, na leitura da Parashá Shelách Lechá, celebro também os 40 anos do meu Bar Mitzvá. Hoje, reencontro o mesmo texto com outros olhos. Hoje, ele me convida ao olhar. Olhar a terra adiante. Olhar o caminho, aquilo que construímos. Olhar aquilo que ainda sonhamos construir. 

E que o silêncio do deserto nos inspire!


Shabat Shalom!

Ale Edelstein