É possível viver fora da terra de Israel e ainda assim pertencer a ela? A vida judaica em milênios de diáspora mostrou que sim. Em cada Pessach, exclamávamos “Le’shaná há’baá b’irushalaim”, sinalizando que mesmo diante da impossibilidade concreta do retorno, a esperança em si mesma sustentava o vínculo sagrado. Era como se, assim que tivéssemos a oportunidade, o retorno completo do povo judeu a Israel se daria. Em 1948 o Estado de Israel foi declarado independente, e ainda há comunidade judaica fora de suas fronteiras.

Esse fenômeno não é novo, e Moisés, na Parashát Devarim que lemos nesta semana, volta a nos contar sobre a escolha das tribos de Reuvén, Gad e parte da tribo de Menashé em permanecer assentado do outro lado do rio Jordão. O Judaísmo sempre foi uma civilização que entendeu que o outro lado do rio não precisa ser uma separação. 

Também parte dos judeus da Babilônia que tinham sido levados cativos pós-destruição do 1º Templo não retornaram a Israel quando os Persas finalmente assumem o controle e cria as condições para o retorno. E o Talmud justamente vai nascer na diáspora babilônica, assim como a filosofia judaica medieval na Espanha e o hassidismo na Europa Oriental. 

O Judaísmo se enriqueceu ao dialogar com gregos, árabes, europeus, e no diálogo interno entre suas próprias margens. O Talmud floresceu na rede viva de pessoas, cartas e tradições orais que viajavam entre a Babilônia e a terra de Israel, por rotas terrestres que cruzavam o deserto sírio e o Eufrates.

A história da escolha das tribos de Gad e Reuvén (e depois metade de Menashé) de se estabelecerem na Transjordânia aparece duas vezes na Torá, e a diferença entre as duas versões já é, em si, uma lição. Em Bamidbar, Gad e Reuvén pedem para se assentar ali; Moisés reage com duras críticas. Afinal, toda a caminhada pelo deserto ao longo de 40 anos tinha por finalidade entrar à terra! Mas em Devarim, quando Moisés reconta a história, eles não pedem. Ele a dá, sem acusações. Gad e Reuvén, mesmo assentados do lado de fora, lutaram braço a braço com as 10 tribos para que se estabelecessem na terra. O compromisso precedeu o pertencimento, e essa lição ecoa até o presente.

Hoje, milhões de judeus vivem na diáspora. E, como as tribos de Gad e Rúben, enfrentam a mesma negociação: como manter o vínculo com Israel e com o povo judeu quando se está geograficamente distante? A resposta da parashá é que o pertencimento não se perde pela distância física, mas pelo esquecimento do compromisso mútuo.

É preciso que a distância seja atravessada pela responsabilidade. A diáspora que floresce é aquela que atravessa o Jordão simbolicamente todos os dias, por meio do estudo, da presença em visitas, do apoio financeiro, político e diplomático, pelo cuidado com o povo e com a terra.

Escrevo este comentário desde terra de Israel, e aproveito a mensagem da parashá para refletir sobre a minha dupla condição, morando no Brasil, mesmo estando sempre vinculada espiritualmente à terra de Israel (e em forma física recorrentemente, a cada subida para estudar, me nutrir, me voluntariar, ou mesmo apenas estar presente). 

E ainda que a mensagem de Bamidbar às tribos que se mantém fora da terra tenha sido dura, em Devarim Moisés reconta a história com amorosidade. A cena da repreensão desaparece. O líder generoso encontra a maneira de tornar o rio, não uma barreira, mas um caminho acessível, cujo fluxo é compartilhado por ambos os lados.

Que a corrente que passa entre as comunidades judaicas da diáspora e de Israel seja a prova de que, mesmo distantes, estamos todos no mesmo fluxo.

Shabat Shalom!