Há momentos na vida em que tudo o que desejamos não acontece. Rezamos, insistimos, fazemos o nosso melhor e, ainda assim, a resposta é diferente daquela que esperávamos.

Esse é o cenário que abre a parashá Vaetchanan.

Moisés suplica a Deus que lhe permita entrar na Terra Prometida. Depois de quarenta anos conduzindo o povo pelo deserto, esse parecia ser o desfecho natural de sua missão. Mas Deus responde que não.

Moshe implora. Repassa sua vida, seu esforço, seus quarenta anos liderando o povo no deserto, como quem assiste à própria história pelo espelho retrovisor. E, ainda assim, a resposta de Deus permanece a mesma.

Em vez de atravessar o Jordão, Moisés sobe ao monte e contempla a terra à distância, e ali descobre uma das maiores lições da vida: há sonhos que não fomos chamados a viver, mas a tornar possíveis para outros. E nisso também há propósito.

Por isso, não é por acaso que este Shabat é chamado de Shabat Nachamu, o Shabat da Consolação. Logo após lembrarmos a destruição de Tishá BeAv, a tradição nos convida a ouvir as palavras do profeta Isaías: “Nachamu, nachamu ami” “Consolai, consolai o Meu povo”.

A consolação judaica não é esquecer o passado; é encontrar forças para construir o futuro. Ela não apaga a dor, mas impede que a dor tenha a última palavra.

A esperança no judaísmo não é a crença de que tudo terminará bem, mas a convicção de que somos chamados a construir o bem, mesmo quando a realidade ainda está incompleta.

Talvez essa seja a grande lição de Vaetchanan. A maturidade espiritual não está em controlar os resultados, mas em permanecer fiel ao propósito.

Nem toda oração muda a realidade, mas toda oração pode transformar quem reza.

Às vezes, Deus muda o nosso caminho. Outras vezes, transforma o caminhante.

É essa transformação que nos permite seguir adiante com coragem e a serenidade de quem confia que Deus continua, junto conosco, escrevendo a história, um capítulo de cada vez, mesmo quando o que está por vir ainda permanece no plano do mistério.

Shabat Shalom!