Ki Tavô começa com uma das imagens mais bonitas da Torá: os bikurim, os primeiros frutos.

Depois de trabalhar a terra, esperar, cuidar e finalmente colher, o agricultor separava os primeiros frutos e os levava a Jerusalém.

E quando chega diante do sacerdote, a Torá não lhe pede que fale sobre sua colheita. O foco não está em suas conquistas. Pede que conte uma história:

“Arami oved avi…” — “Meu pai era um arameu errante…”

Ele fala de seus antepassados. Do Egito. Da escravidão. Da libertação. Da longa caminhada até aquele momento.

Porque nenhum fruto começa no momento da colheita.

Como se a Torá quisesse lhe dizer:

Antes de olhar para aquilo que está em suas mãos, lembre-se de quantas mãos tornaram possível que você chegasse até aqui.

Dentro de cada conquista existem sementes que outros plantaram. Sonhos que outros sonharam. Pessoas que cuidaram e abriram caminhos para que chegássemos até aqui.

E há uma expressão curiosa nesse relato:

“Ve’anita ve’amarta” , “E responderás e dirás.”

O texto pede para responder quando ninguém havia feito uma pergunta…

Talvez porque existam momentos em que é a própria vida que nos interpela: O que você fará com aquilo que recebeu?

Com as oportunidades que teve.
Com aquilo que aprendeu ao longo de tantos anos.
Com as pessoas que encontrou pelo caminho.
Com os frutos que outros ajudaram a colocar hoje em suas mãos.

E assim, os primeiros frutos deixam de ser apenas um gesto de gratidão e tornam-se também uma resposta.

Às portas de um novo ano, Elul nos convida a escutar novamente essa pergunta.

Não apenas:

O que quero receber da vida no próximo ano?

Mas, talvez ainda mais importante:

Que resposta quero dar à vida com tudo aquilo que já recebi dela?

Shabat Shalom!