“Atem nitsavim”, “vocês estão neste dia (haiom), todos vocês (culchem) diante do Eterno, vosso Deus, vocês chefes das tribos, vocês anciãos, e vocês oficiais, todos os homens de Israel, as vossas crianças, vossas mulheres, inclusive os estrangeiros que convivem com vocês, do lenhador ao carregador de água—para entrarem no Pacto do Eterno, seu Deus, que o Eterno seu Deus conclui com vocês neste dia, com as suas sanções”.

Atem nitsavim haiom culchem… Vocês todos estão hoje presentes… Nas primeiras quatro palavras, duas merecem atenção. Começo com “culchem”, TODOS. Não existe brit, não há pacto, entre Israel e o Eterno se não estivermos juntos. E quem somos “nós”, de acordo com o texto? Aqueles que são privilegiados, claro, nem precisa explicar: os líderes políticos, os sábios, os juízes. Porém a lista não para por aí: crianças e mulheres—duas categorias que nem sempre foram incluídas na definição de “povo” são aqui especificadas, pois sem elas também não há brit. E o texto vai além: também o estrangeiro que mora entre vocês. Que ideia radical! Se um estrangeiro escolhe viver entre nós, também ele tem de ser incluído no brit. Suas regras de residência não podem ser mudadas sem seu consentimento. E quem eram alguns desses estrangeiros que a Torá especifica? Desde o rachador de lenha até aquele que tira a água do poço para você poder beber. Isto é: aqueles que desempenham as tarefas que nenhum de vocês quer fazer!

Penso na realidade dos Estados Unidos, com os frequentes ataques contra os imigrantes, incluindo os que entraram no país ilegalmente. Sem eles, eu, que hoje em dia moro na Califórnia, não comeria nem alface nem morangos! Ninguém quer esse trabalho duro sob um clima inclemente… Quem são aqui, no Brasil, aqueles que fazem as coisas que nós não queremos fazer, mas que são necessárias para mantermos nossas confortáveis vidas? 

Culchem, sem exclusões, a não ser quem não aceita as regras. Todos. Além de todas as diferenças ideológicas que podemos ter, direita e esquerda, haredi ou reformista, ashkenazi ou mizrahi, se não estivermos juntos para afirmar o brit que dá direito à nossa existência na terra de Israel, não há brit nem direito à terra.

E aqui vem a segunda palavra importante: “haiom”, hoje. O grande comentarista Rashi explica: haiom não se refere ao dia em que Moshe falava com o povo de Israel as vésperas da chegada à Terra Prometida. Haiom, diz Rashi, é cada dia, todos os dias, estes dias, o dia de hoje! Cada dia é véspera de algo novo, hamechadesh bechol iom tamid

O brit deve ser renovado a cada dia. Às vésperas de entrarmos nos dias mais sagrados do calendário, a Torá vem nos lembrar da necessidade da união. Não está interessada em unanimidade, não tem medo de diferenças, de controvérsias ou discussões. O que ela procura é inclusão, tolerância de diferenças, capacidade e vontade de ouvir o que o outro tem a dizer. E o que a Torá nos diz, de acordo com Rashi, é que a cada dia o brit deve ser reafirmado novamente, e muito mais ainda nesse período, às vésperas de nos encontrarmos nos Dias Temíveis do nosso calendário. Você quer que o Eterno ouça suas preces? Não deixe de se unir ao povo que estará reunido em oração, na sede da CIP ou na Hebraica, ou em qualquer sinagoga do mundo. E, quando estiver lá, tenha certeza que você pode ouvir a voz do seu vizinho… Atem nitsavim haiom culchem, nesses dias estaremos juntos, haiom, e cada dia somos conclamados para a união, para a presença e para a renovação do nosso pacto como povo e do nosso pacto com Deus.

Shabat Shalom