Nesta semana, quando o avião da Flydubai foi tomado por um terrorista e começou a despencar na vertical com 180 pessoas suspensas entre a vida e a morte, o final trágico se apresentava como inevitável.
Em menos de dois minutos, o avião já tinha perdido mais de cinco quilômetros de altitude.
Parecia não haver mais saída. Só restava rezar e se despedir.
Porque o que poderia salvar aquelas vidas, senão um milagre?
E foi exatamente o que aconteceu.
Um milagre. Mas não um milagre qualquer.
Um milagre judaico.
A nossa tradição guarda uma ideia muito particular sobre o que é um milagre.
Não é juntar as mãos, olhar para o céu e esperar que Deus faça sozinho o impossível.
Lembremos do relato bíblico do Mar Vermelho:
O povo estava encurralado.
Atrás, o exército do faraó. À frente, o mar.
Nenhuma saída.
Moshé roga a Deus por ajuda, certo de que Ele iria resolver.
E Deus responde:
מַה־תִּצְעַק אֵלָי? דַּבֵּר אֶל־בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל וְיִסָּעוּ
“Por que clamas a Mim? Dize aos filhos de Israel que avancem.”
Êxodo 14:15
Esse é o milagre judaico.
Chega uma hora em que esperar já não basta.
Os sábios contam que o mar não se abriu enquanto o povo esperava.
Nachshon ben Aminadav entrou na água.
A água subiu.
Chegou até o pescoço.
E ele continuou caminhando.
Porque o primeiro passo nunca termina em quem o dá.
Ele chama outros a se levantarem.
A caminhar.
A agir.
A transformar medo em coragem compartilhada.
E foi assim também naquele avião.
Um se levantou.
Depois outro.
E as mãos começaram a se encontrar.
As mãos que enfrentaram o terrorista.
As mãos que estabilizaram o avião.
As mãos que contiveram a hemorragia do comandante.
Mãos que venceram o medo, correram em direção ao perigo e, finalmente, se uniram para se abraçar.
Para cantar.
Para dançar.
Para se sustentar.
Mãos que, quando encontram outras mãos, se tornam as mãos de Deus neste mundo.
E neste fim de semana, em Simchat Torá, voltaremos a segurar a Torá com essas mesmas mãos.
Vamos abraçá-la.
Vamos dançar com ela.
E fazer com que aquilo que carregamos nos braços também ganhe vida nas nossas escolhas.
Depois de 7 de outubro, sabemos o peso dessa dança.
Naquele dia fizemos uma promessa:
We will dance again.
Não dançamos para esquecer da dor.
Dançamos porque lembramos.
Dançamos por nós.
E dançamos por eles.
E dançamos também como uma mensagem ao mundo:
Podem tentar nos matar. E nós vamos lutar.
Am kelaví , como leões.
Por nós.
Pela nossa história.
Pela vida.
A Torá nos diz:
וּבָחַרְתָּ בַּחַיִּים
Uvacharta bachaim.
“Escolherás a vida.”
Não diz: esperarás pela vida.
Escolherás.
Te levantarás e atravessarás o mar.
Te levantarás e voltarás a dançar.
Te levantarás e impedirás que um avião continue caindo.
Te levantarás para continuar vivendo depois da dor.
Há momentos em que escolher a vida significa exatamente isso:
se levantar quando tudo parece perdido.
Dar o primeiro passo quando ainda não existe caminho.
Continuar quando o medo manda parar.
E fazer, junto com outros, aquilo que sozinho parecia impossível.
É assim que nasce o milagre.
O milagre judaico.
Shabat Shalom
Rabino Dario Bialer
