Na parashá Lech Lechá, Avraham e seu sobrinho, Lot, chegam a um momento em que precisam tomar uma decisão muito difícil. Os dois haviam caminhado juntos, compartilhado os desafios da jornada e construído suas famílias. Com o passar do tempo, porém, seus rebanhos cresceram, seus pastores começaram a disputar espaço e a convivência se tornou cada vez mais difícil. Aquilo que antes os unia passou a ser motivo de conflito.
Avraham percebe o risco e toma a iniciativa. Propõe que os dois sigam caminhos diferentes, dizendo a Lot: “Que não haja discussão entre mim e você, entre meus pastores e os seus, pois somos irmãos” (Bereshit 13:8). Em seguida, oferece ao sobrinho a possibilidade de escolher primeiro a região onde deseja se estabelecer.
Avraham poderia ter usado sua posição de tio, sua autoridade e sua experiência para impor uma decisão. Poderia ter transformado a disputa por pastagens numa questão de honra, na qual ceder significaria perder. Em vez disso, compreende que existem situações em que preservar uma relação exige abrir mão de uma vantagem imediata.
Lot escolhe a região fértil ao longo do rio Jordão e segue em direção a Sodoma. Avraham permanece na terra de Canaan, em Hevron. A separação acontece, e os caminhos dos dois passam a ser diferentes.
Pouco tempo depois, porém, Lot se vê envolvido numa guerra entre reis. Sodoma é derrotada, seus bens são levados e seus habitantes são capturados. Lot, que havia escolhido aquela região para construir seu futuro, acaba prisioneiro das disputas de poder que aconteciam ao seu redor.
Quando Avraham recebe a notícia, poderia concluir que Lot havia feito suas escolhas e agora deveria arcar sozinho com as consequências. Afinal, os dois haviam se separado justamente porque seguir juntos se tornara difícil. Avraham, entretanto, reúne seus homens e parte para resgatar o sobrinho.
É uma das cenas mais significativas da parashá. A divergência anterior continua fazendo parte da história, mas ela não determina o que Avraham fará diante do sofrimento de Lot e sua família. Ele consegue distinguir entre as disputas que tiveram e responsabilidade que continua tendo por outras pessoas.
A história continua narrando a disputa de territórios entre diversos reis locais que acumulam poder e arrastam populações inteiras para seus conflitos. Pessoas comuns acabam pagando o preço das ambições de seus governantes. No meio dessa realidade, Avraham escolhe agir para salvar vidas, mesmo quando isso significa correr riscos.
Ao final da guerra, o rei de Sodoma oferece a Avraham os bens recuperados. Ele recusa a proposta, deixando claro que não deseja enriquecer com aquela vitória. Sua lealdade não está à venda, e seu compromisso não depende das vantagens que o poder possa oferecer.
A tradição judaica nos convida a refletir sobre a qualidade das nossas alianças, sobre os limites da autoridade e sobre a responsabilidade que temos uns pelos outros. Quando transformamos pessoas em ídolos e líderes em figuras acima de qualquer crítica, entregamos a eles algo que jamais deveria lhes pertencer: nossa capacidade de julgar, questionar e escolher o que é justo.
Uma sociedade precisa de divergências, de debates e de pessoas dispostas a defender suas convicções. Precisa também da capacidade de reconhecer que, apesar de nossas diferenças, compartilhamos um destino e uma responsabilidade pelo bem comum. Quando a disputa passa a valer mais do que as pessoas, todos corremos o risco de nos tornar reféns das ambições de alguém.
Avraham nos ensina que podemos seguir caminhos diferentes e ainda assim reconhecer a humanidade de quem caminha ao nosso lado. Podemos discordar, estabelecer limites e combater aquilo que consideramos injusto sem transformar nossos semelhantes em inimigos permanentes.
Afinal, antes de pertencermos a qualquer grupo ou seguirmos qualquer liderança, somos responsáveis uns pelos outros. E nenhuma vitória tem valor suficiente para justificar a perda dessa responsabilidade.
Shabat Shalom!
Rav Natan Freller
