Parashat Nassô parece conhecer profundamente essa dimensão da existência.
E assim, a maior leitura de toda a Torá dedica longos capítulos à organização do acampamento no deserto, às funções de cada grupo, aos detalhes da vida coletiva e às responsabilidades de cada pessoa enquanto davam seus primeiros passos no deserto em direção à Terra Prometida.
Porque talvez a Torá compreenda algo fundamental: não se atravessa um deserto apenas com inspiração.
Comunidades precisam de organização.
Projetos coletivos precisam de direção.
E até a espiritualidade precisa de espaço para habitar.
Mas existe algo igualmente importante que essa passagem da Torá parece querer nos ensinar.
Estruturas existem para sustentar vidas, e não o contrário.
Talvez seja justamente por isso que, no meio de listas, tarefas, números e responsabilidades, aparece um dos textos mais delicados de toda a tradição judaica: Birkat Cohanim, a bênção sacerdotal:
יְבָרֶכְךָ ה׳ וְיִשְׁמְרֶךָ
יָאֵר ה׳ פָּנָיו אֵלֶיךָ וִיחֻנֶּךָּ
יִשָּׂא ה׳ פָּנָיו אֵלֶיךָ וְיָשֵׂם לְךָ שָׁלוֹם
“Que Deus te abençoe e te proteja.
Que Deus faça Sua face iluminar sobre ti.
Que Deus volte Sua face para ti e te conceda paz.”
Como se a Torá quisesse nos lembrar que, depois de organizar o acampamento, ainda permanece a pergunta mais importante:
Para que tudo isso?
Para construir uma sociedade onde as pessoas se sintam protegidas, e onde exista o cuidado suficiente para que a presença divina possa ser percebida no vinculo entre as pessoas.
E talvez por isso a bênção termine justamente com “shalom”.
Não apenas paz como ausência de conflito, mas inteireza.
A capacidade de permanecer inteiro mesmo quando a vida se fragmenta.
Porque o deserto certamente trará desafios, incertezas e cansaço.
Mas talvez a verdadeira paz não seja a ausência de dificuldades, e sim descobrir que existe cuidado suficiente para continuar caminhando.
Shabat Shalom!
Rabino Dario Bialer
