A palavra “paz” em português carrega muitas camadas de significado. Pode indicar a ausência de guerra, um estado emocional tranquilo, ou ainda uma ideia ideal de harmonia. Mas, para nós, que lemos a Torá em hebraico, “paz” é shalom, da mesma raiz de shlemut, que significa plenitude. A palavra shalem, completo, inteiro, é também parte da mesma família.

Na tradição judaica, ensinamos que a paz não é apenas o contrário da guerra. Paz verdadeira é algo que só existe quando está completa.

Pinchás, filho de Elazar, neto de Aharon haCohen, o sumo-sacerdote e irmão de Moshé. Quando viu Zimri, líder da tribo de Shimon, se relacionando publicamente com Cozbi, uma mulher midianita, em meio a uma praga que assolava o povo, ele os matou com uma lança por seu pecado. Como resultado, a praga que afetava o povo cessou, e Deus concedeu a Pinchás um pacto de paz, um brit shalom, e o elevou ao sacerdócio perpétuo, junto a todos seus descendentes.

No versículo em que Deus concede a Pinchás esse pacto de paz — brit shalom (Bamidbar 25:12) — a palavra shalom aparece escrita com uma peculiaridade: a letra vav, no meio da palavra, está aparentemente rachada.

Uma provocação à noção de paz que carregamos, conectada a raiz da palavra shalem, completo, justamente uma letra dessa palavra é escrita de forma incompleta.

Assim é escrita em nossos Sifrei Torá:

Uma primeira interpretação possível é que a rachadura da letra vav reflete a própria ação de Pinchás. Seu gesto foi radical: um assassinato em nome de Deus.

Ainda que o texto diga que sua atitude conteve a praga e restaurou a ordem, é impossível ignorar que esse “acordo de paz” foi construído através de um ato de sangue.

Os sábios que nos transmitiram essa tradição precisavam deixar claro seu profundo desconforto com essa ideia de paz através da morte. Um lembrete incômodo, mesmo quando o resultado é paz, se o caminho for violento, ela será sempre incompleta. E isso é parte da Torá escrita em sua própria escrita.

Uma segunda leitura diz que a rachadura da letra vav pode representar a condição humana em busca de paz.

Ninguém entra inteiro num acordo de paz. Cada lado carrega dores, medos, perdas, cicatrizes.

Nessa perspectiva, shalom não é uma ideia abstrata. É um processo vivido por pessoas reais, imperfeitas, contraditórias. O pacto de paz precisa acomodar essas rachaduras.

Outra possibilidade: talvez a rachadura não seja um defeito a ser lamentado, mas um reconhecimento maduro.

Nessa perspectiva, pensamos que é melhor uma paz imperfeita do que um conflito justificado.

A rachadura da vav diz: não é a paz ideal, mas é o que é possível agora. É o melhor que podemos construir neste momento.

Quantas vezes na vida buscamos soluções perfeitas e, por isso, adiamos reconciliações possíveis? Quantas vezes queremos um shalom, sem rachaduras, e por isso ficamos presos à mágoa, ao silêncio, a guerra, à distância?

Aceite a rachadura. Construa paz mesmo assim.

Outra perspectiva lê a rachadura da vav como ensinamento de que a verdadeira paz não nasce da rigidez, mas da abertura. Uma letra totalmente fechada se torna impenetrável. Uma letra rachada tem espaço para o outro. Tem por onde entrar a escuta, o arrependimento, a mudança.

Como disse o poeta Leonard Cohen:
“There is a crack in everything — that’s how the light gets in.”
(“Há uma rachadura em tudo — é assim que a luz entra.”)

Talvez o brilho da paz surja justamente por meio dessa imperfeição assumida. Apenas através da teshuvá, do processo de olhar para dentro de si, seja como individuo, povo, nação, e reconhecer as vulnerabilidades e rachaduras que nos constituem, possamos chegar a uma paz verdadeira.

As rachaduras e cicatrizes do passado não tornam o Sefer Torá pasul, inválido, pelo contrário, para que o Sefer Torá seja kasher, ele precisa dessa abertura no vav e todas suas interpretações.

Cada rachadura tem algo a nos dizer. E é por meio delas que a luz entra, que o diálogo começa, que a reconciliação se torna viável.

Que possamos, assim como Aharon haCohen, avô de Pinchás, devemos praticar a paz e persegui-la, como indivíduos, como comunidade, como nação e como povo, ter a coragem de construir shalom mesmo quando não for perfeito. Que saibamos transformar nossas rachaduras em pontes. E que a bênção da paz possa repousar sobre nós, sobre o povo de Israel, e sobre toda a humanidade.


Shabat Shalom!

Rav Natan Freller