Aprendemos no Pirkei Avot, na voz de Rabán Shimon ben Gamliel, que “o mundo se sustenta sobre três pilares: justiça, verdade e paz” (1:18). 

Talvez possamos imaginar o mundo como uma mesa sustentada por três pernas, e se alguma delas não estiver presente a mesa não se sustenta?

A parashat Nôach que lemos nesta semana parece se inclinar a essa posição.

“Nôach foi um homem justo e íntegro em suas gerações” (Gen. 6:9). É exatamente a justiça a marca que o salva do dilúvio. Essa afirmação, retomada e intensificada pelo profeta Yechezkel, quando diz que “por sua justiça Nôach salvou sua vida” (14:14), será interpretada pelo Zohar como a sua ausência de intercessão pelo povo (I 58a).

Então talvez o dilúvio tenha sido resultado da mesa que cedeu e as águas transbordaram porque a perna da bondade não se apresentou em contraponto. “E Deus fechou a arca por fora” (Gen. 7:16).

Nôach legou o piso ético universal (Sanhedrin 56a): o mínimo que impede o mundo de se destruir. Ou seja, cada um que age com justiça evita a destruição do seu próprio mundo. E será só muito mais tarde que a bondade vai aparecer na narrativa de Bereshit. Avraham fundará a missão de ser bênção: “ve’heiê brachá” (Gen. 12:2). Já não o piso, mas o teto que faz o mundo florescer.

Se a bênção que recebemos serve apenas para nos proteger, ela está completa? A síntese profética é conclusiva: “fazer justiça e amar a bondade” (Micha 6:8). A bondade silencia a justiça quando evita o confronto necessário; a justiça silencia a bondade quando pune sem deixar espaço para restauração. 

A qual desses extremos a sua vida se aproxima mais… em casa, no trabalho, na comunidade?

Que “arcas” construímos hoje que nos protegem e, ao mesmo tempo, nos separam de quem fica de fora?

Que a leitura da Torá nesta semana nos inspire a sermos justos sem endurecer o coração, e bondosos sem abandonar a balança. 

Que a nossa justiça nunca feche portas por fora, e a nossa bondade tenha a coragem de abrir as que estão fechadas.

E que, depois das nossas tempestades, saibamos olhar para o céu e lembrar: o mundo se sustenta quando fazemos justiça e amamos a bondade. Os dois, juntos, no mesmo gesto.

Shabat Shalom!

Rabina Kelita Cohen