A parashat Haazinu abre com um imperativo que é também um convite pedagógico: “Dai ouvidos, ó céus, e eu falarei” (Devarim 32:1). O nome da parashá vem do verbo lea’azin, escutar, e a Torá o distingue de outros modos de ouvir, como lehakshiv e lishmoa. Escutar, aqui, não é um ato passivo. É a postura de quem se abre para receber e para ser transformado pelo que ouve.
No coração da canção de Moisés está um verso que a tradição educativa judaica jamais deixou de ecoar: “Pergunta a teu pai e ele te dirá; a teus anciãos e eles te ensinarão” (Devarim 32:7). O paralelismo poético não é acidental. Ao alinhar o pai aos anciãos, Moisés equipara a transmissão familiar à transmissão comunitária. O pai ensina porque é pai; os anciãos ensinam porque detêm o conhecimento e se dedicam a ensinar. Ambos, porém, cumprem a mesma função: são fontes de ensinamento. A educação, ensina a parashá, não é monopólio da família nem da escola. É uma corrente que atravessa gerações e que só se mantém viva quando cada elo aceita ensinar e aprender.
Moisés, aliás, escolheu para essa lição a forma mais antiga e mais poderosa de pedagogia: a música. A parashá inteira é uma canção (shirá), composta para ser cantada e memorizada. A poesia e o canto não são meros adornos; são ferramentas educativas por excelência. O que se canta permanece, o que se rima se grava na memória, o que se entoa com emoção atravessa o intelecto e alcança o coração. Ao ensinar cantando, Moisés nos ensina que o conhecimento digno de ser transmitido é aquele que consegue ser amado.
Mas há um segundo movimento, talvez o mais surpreendente da parashá: o educador também aprende. A rabina Yael Splansky observa que o livro de Devarim é, literalmente, o livro das Palavras, e que o Moisés que o pronuncia não é o mesmo que se apresentou diante de Deus no começo da jornada. Em Êxodo 4:10, Moisés se descreve como lo ish d’varim anochi, um homem de poucas palavras, k’vad pê, pesado de boca, e u’ch’vad lashon, pesado de língua. Ao final do percurso, porém, é esse mesmo homem quem encontra sua voz e entrega ao povo o discurso mais longo e mais denso da Torá. O que aconteceu no meio? A relação educativa. Foi ensinando, dialogando, sendo interpelado pelas perguntas do povo, que Moisés se tornou capaz de falar. O educador que ensina também aprende; e é precisamente na relação com o aluno que o mestre desenvolve a própria voz.
A literatura rabínica levou essa equiparação entre pai e professor até as últimas consequências. Em Sanhedrin 19b, Rabi Shmuel bar Nachmani transmite em nome de Rabi Yonatan: “Todo aquele que ensina Torá ao filho de seu próximo, a Escritura o considera como se o tivesse gerado.” O verbo usado, ialad, é o mesmo do nascimento físico. O professor é um genitor: gera conhecimento, gera continuidade, gera futuro.
E em Bava Metzia 33a a tradição vai ainda mais longe: “Seu pai o trouxe a este mundo, mas seu mestre, que lhe ensinou sabedoria, o traz à vida no Mundo Vindouro.” Há dois nascimentos na vida de uma pessoa: o biológico, dado pelos pais, e o espiritual, dado pelo mestre. E é o segundo que confere sentido ao primeiro.
Que possamos, neste ano 5787, escutar como Haazinu nos ensina: com abertura, com atenção, com disponibilidade para sermos transformados.
Que saibamos pedir perdão àqueles a quem ensinamos e àqueles de quem aprendemos, reconhecendo que toda relação educativa é também uma relação de responsabilidade.
E que, como Moisés, encontremos nossa voz: a voz que pede perdão, a voz que ensina, a voz que canta.
Shabat Shalom!
Shaná Tová v’Chatimá Tová!
Rabina Kelita Cohen
