Estamos todos conectados

Estamos na primeira parashá do último livro da Torá. Nele veremos os três últimos
grandes discursos de Moshé. Estão às vésperas de atravessar o rio Jordão para iniciar a
conquista da terra de Cnaan, quarenta anos depois de terem saído do Egito. Uma nova
geração, uma nova maneira de viver e de se relacionar com Deus.
O primeiro que Moshé faz é recontar o caminho que percorreram desde a saída do
Egito até chegar neste lugar. Sem deixar de lado todos os problemas e conflitos que ocorreram
em cada lugar. Moshé ao invés de relembrar o que aconteceu com os antepassados desta
geração, relata como se tivesse acontecido com estes, que estão às margens do rio. Em
diversos momentos diz “nós fomos, “eu disse a vocês” e “vocês fizeram”.
É possível que tudo isso já tenha sido relatado a eles. Que eles conheçam em detalhe o
que aconteceu com seus antepassados, especialmente o que fez com que houvesse a
necessidade da troca de geração e a ansiedade da espera por chegar na Terra Prometida,
mesmo sem terem vivido muito disto.
Mas a escolha de Moshé em relembrar como se estiveram presentes fisicamente
nestes eventos não é leviana. Estamos todos conectados. Quando Moshé diz “nós” e “vocês”
está se referindo também a nós mesmos, aqui agora.
O que fazemos impacta os outros, e também outras gerações. O cuidado ou falta dele
com mundo, por exemplo, terá um impacto às gerações futuras, talvez até maior do que em
nossa própria geração. As ações da primeira geração que saiu do Egito impactaram as
posteriores. A espera necessária para chegar à terra talvez tenha sido boa, aquela primeira
geração não estaria pronta para lidar com a independência. Assim como outros eventos que,
no momento, são avaliados como negativos, podem ter seus impactos positivos a posteriori.
O texto de Devarim é sempre lido no Shabat que antecede Tishá beAv, data em que
relembramos, com pesar, a queda dos Templos de Jerusalém, dia de luto nacional e jejum. O
impacto que isso teve reverbera até hoje. A tradição, totalmente concentrada nos sacrifícios
do Templo, elitizada na qual as pessoas traziam os sacrifícios, mas quem os oferecia eram só os
sacerdotes, é obrigada a mudar. Essa mudança permitiu o acesso de todos à tentativa de
contato com o divino. O evento trágico permitiu algo positivo. Deus saiu do Templo, para
entrar em cada sinagoga e cada casa.
A vida e o mundo não são tão óbvios assim. O que de um lado pode parecer bom pode
ser prejudicial depois, e vice e versa. As conseqüências, tanto positivas como negativas podem
aparecer somente gerações depois. Por isso não podemos ignorar nossa relação com o
passado e com o futuro. A humanidade está em uma grande corrente que nos une ao primeiro
ser humano e também ao último (se este existir).
A história relatada no Talmud de Choni haMeaguel, que encontrou um senhor de idade
plantando uma alfarrobeira, árvore que demora setenta anos em dar frutos, com a simples
justificativa de que encontrou o mundo com árvores já com frutos e gostaria de deixar algum
legado similar às próximas gerações deveria nos inspirar. Se agirmos buscando uma melhora
do mundo, ou uma manutenção das coisas que acreditamos ser boas poderemos tentar ter um
impacto positivo para as gerações depois da nossa.
Que possamos escutar a mensagem de Moshé dizendo “vocês” e nos conectarmos
realmente com essas pessoas e com todas as que virão que também escutarão esse “vocês”.
Que possamos olhar o mundo e nossas ações considerando os reais impactos das nossas
ações.
Shabat Shalom
Rabina Fernanda Tomchinsky-Galanternik