Quando eu ainda era aluno de rabinato, fiz um estágio como capelão hospitalar. O programa era bastante intenso e passávamos os dias visitando pacientes e discutindo com nossos colegas e supervisores como cada encontro havia sido. A cada duas semanas, um de nós ficava de plantão e passava a noite no hospital, dando apoio espiritual a qualquer emergência que pudesse ocorrer. 

Em um dos meus plantões, fui acordado no meio da noite. Um sujeito esperava há algum tempo por um transplante de pulmão e, finalmente, tinham encontrado um doador! Cercado de amigos e parentes, ele me pedia uma bênção antes da operação. Antes de lhe dar a bênção, eu lhe pedi que reconhecesse as bênçãos que flutuavam ao seu redor… ele tinha recebido uma segunda chance na vida e, cercado das pessoas que mais o amavam no mundo, se preparava para este recomeço. “Lindo, rabino”, ele me respondeu, “agora, por favor, você pode dar a minha bênção?!”

Nossa relação com as bênçãos varia muito — para alguns de nós, o que realmente vale é o que acontece no mundo físico, no qual as bênçãos talvez não impactem muito. Para outros, no entanto, as bênçãos representam pontes entre o espiritual e o material e, ainda que seus efeitos não sejam imediatos, abrem nossos olhos e corações para as bênçãos reais que nos cercam.

Na parashá desta semana, Iaacov e Rivcá tramam para enganar Itschác, para que ele dê a Iaacov a benção da primogenitura que planejava dar a Essáv. O rabino Gunther Plaut pergunta a respeito dessa história: “mas como uma benção dada à pessoa errada pode ter qualquer efeito?”. E ele adicionou à pergunta: “para começar, uma benção não é um contrato legal, mas sim uma reza. Ainda assim, quando emitida por um pai, acredita-se que ela tenha um poder especial, pois Deus está envolvido quando um pai dá sua bênção a seu filho. Uma bênção não é como uma mercadoria que pode ser tomada de volta quando se percebe que ela é falha. Uma vez dada, está nas mãos de Deus.” [1]

Ao final da enganação de Iaacov e Rivcá, Essáv procura seu pai, esperando receber a bênção prometida, trazendo o cozido que Itschác havia pedido. Quando ele escuta que a bênção já havia sido dada a Iaacov, sua decepção é evidente. “Você não guardou uma bênção para mim?!”, ele pergunta ao pai. “Abençoa-me também, pai”, ele pede aos prantos. Há momentos nos quais nos sentimos como Essáv, como se todas as bênçãos tivessem sido dadas e nenhuma sobrado para nós… E ainda assim, durante toda a nossa vida, recebemos bênçãos sem nos darmos conta. Infelizmente, muitas vezes prestamos mais atenção aos tropeços que damos na vida do que às coisas maravilhosas que nos acontecem diariamente. 

As bênçãos da tradição judaica, assim como aquelas que formulamos em momentos especiais, se não têm a capacidade de transformar a realidade objetiva, pelo menos conseguem transformar como enxergamos a vida e nos fazem perceber as maravilhas das quais desfrutamos. Ao abrirem os nossos olhos, acabam de fato impactando a realidade de forma direta.

Que este seja um shabat especialmente abençoado, cheio de paz, de encontros e de olhos abertos para as bênçãos que nos rodeiam.

 

Shabat shalom,

Rabino Rogério Cukierman

 

[1] W. Gunther Plaut, “What did Isaac Know?”, Learn Torah With…. 5755: a Collection of the Year’s Best Torah, Alef Design Group, 1996, p. 43.