“Você deve nomear magistrados e oficiais para suas tribos, em todos os assentamentos que Adonai seu Deus está dando a você, e eles devem governar o povo com a devida justiça. Você não deve julgar injustamente: você deve mostrar nenhuma parcialidade; não aceitareis subornos, pois os subornos cegam os olhos dos mais perspicazes e perturbam o apelo dos justos. Justiça, justiça você deve perseguir, para que você possa prosperar e ocupar a terra que Adonai, seu Deus, está lhe dando” (Devarim 16: 18-20).
É difícil ler a parashá desta semana sem estabelecer relações com os eventos atuais aqui no Brasil, em Israel e ao redor do mundo.
Afirmamos que a Torá é eterna e sua sabedoria ainda é relevante para nossos dias. Para sustentar essa afirmação, é importante compreender os desafios propostos e estar ciente dos problemas que enfrentamos ao ler a Torá à luz dos eventos atuais. Uma leitura literal, sem colocá-la em perspectiva diante da realidade, pode levar ao perigo do fanatismo religioso. Uma leitura relativista plena, porém, pode levar ao niilismo, à rejeição de todos os princípios religiosos e morais, por serem desatualizados ou simplesmente irrelevantes.
É um movimento de contracultura buscar sabedoria em nossa tradição, em livros antigos e ao mesmo tempo não lutar por uma verdade de supremacia religiosa. Ou mais! Lutar exatamente pelo oposto. Essa sempre foi a grande empreitada rabínica: por meio do estudo e da devoção, encontrar maneiras significativas de conectar nossa sabedoria ancestral com nossas vidas.
Desde o Talmud, lidando com o exílio em massa e deslocamento de um povo inteiro, lamentando a destruição de nossa casa e ansiando pela hora de voltar, os sábios foram encarregados desta missão. Nos tempos modernos, continuamos com o desafio de manter viva esta missão, esse pacto.
Felizmente, não vivemos em uma sociedade governada por uma religião, muito pelo contrário—a liberdade religiosa é um elemento chave da civilização ocidental desde o Iluminismo. Todo indivíduo tem o direito de acreditar e praticar (ou não acreditar nem praticar de forma alguma) sua religião de acordo com a sua vontade. Como judeus modernos, apoiamos esse modelo, que nos salvou da perseguição e nos concedeu liberdades e direitos. Ao mesmo tempo, precisamos estar engajados na arena cívica, trazendo nossas vozes como cidadãos legítimos para fazer parte dessas conversas, carregando conosco nossos valores como judeus.
Precisamos separar a religião institucionalizada das instituições políticas, mas não podemos separar nossos deveres morais religiosos do trabalho que devemos fazer como membros de nossa sociedade, quer o façamos dentro da esfera política ou não.
Uma possível explicação da repetição da palavra tsédec (justiça) no início da parashá desta semana é interpretado no Talmud: “Rav Ashi diz: Uma menção de justiça é em relação ao julgamento, no qual o tribunal deve buscar justiça extensivamente, e a segunda menção à justiça é conhecida como pshará—concessão de ambas as partes para atingir uma situação mais justa para todos” (Sanhedrin 32b).
O Talmud prossegue com exemplos práticos de pshará (concessão, acordo mútuo) que eram aplicáveis ao seu público: “Onde há dois barcos viajando no rio e eles se encontram, se os dois tentarem passar, ambos afundam, pois o rio não é largo o suficiente para ambos passarem. Se eles passam um após o outro, ambos passam. E da mesma forma, onde há dois camelos que estavam subindo a subida de Beit Horon, onde há um caminho estreito e íngreme, e eles se encontram, se ambos tentarem subir, ambos caem. Se eles sobem um após o outro, ambos sobem” (Sanhedrin 32b).
Pshará é a chave para combater o fanatismo. Uma sociedade que almeja alcançar capacidade de se colocar no lugar do outro e fazer as devidas concessões em virtude dessa perspectiva, está em vias de encontrar compreensão mútua benéfica para uma sociedade mais justa. Justiça não é um jogo para ganhar ou perder, a justiça é um ideal que nos ajudará a criar uma sociedade melhor para todos.
Definitivamente, existem momentos em que não devemos abrir mão de nossa integridade. Isso não significa que precisamos desistir de nossas causas quando fomos injustiçados. Ao contrário, precisamos lutar ainda mais por justiça nesses casos.
Ao chamar a atenção para a forma como nos engajamos na busca pela justiça, podemos perceber que talvez mais de um lado foi injustiçado e que também merece ser ouvido. E, nesse processo, precisamos ser humildes e fazer um trabalho profundo para verificar a nós mesmos, por qualquer possível erro que também tenhamos cometido.
Como ensinou o mestre hassídico Rabi Simcha Bunim de Peshischa: “Justiça, justiça você deve perseguir: com justiça você deve buscar a justiça. Mesmo a busca da justiça deve empregar apenas meios justos, e não falsidade”.
Ao tornar a Torá significativa para seus dias, o mestre hassídico tornou a sabedoria da Torá também eterna. É nossa tarefa encontrar nela a sabedoria atemporal e não a usar apenas por causa de nossas próprias verdades ou objetivos pessoais. Não se trata apenas de Justiça, mas mais do que isso, de como a alcançamos.
Que todos possamos encontrar caminhos de Justiça durante o mês de Elul, enquanto nos preparamos para nos julgarmos ao encontrarmos a Justiça Divina nas Grandes Festas.
Chodesh Tov
