Essa semana iniciamos a leitura do quarto livro da Torá, Bamidbar (“no deserto”). Nele é narrada a maior parte dos acontecimentos que acompanharam os hebreus desde sua saída do Egito até as vésperas da entrada na Terra de Kenáan.

A primeira parashá do livro é também chamada Bamidbar ou ainda “Bemidbar Sinai” (“no Deserto do Sinai”) pois assim começa nossa parashá (Nm 1:1): “O Eterno disse a Moshé no Deserto do Sinai, na Tenda da Reunião”, orientando-o que fizesse um recenseamento sobre a população que o acompanhava.

Nesse mesmo deserto é que Moshé encontrou a Divindade pela primeira vez, no monte de mesmo nome, Sinai. Ali foi revelado a ele o enigmático nome divino “Serei aquilo que Serei”, ali foram entregues as Tábuas da Aliança, ali o povo hebreu vivencia a experiência sinestésica e mística da Revelação Divina. E naquele mesmo lugar, um ano depois, se inicia nosso quarto livro da Torá.

A verdade é que o deserto tem um importante papel no processo de formação do povo hebreu e nas revelações divinas através dos tempos, desde Avraham. Segundo nossos sábios, a Torá foi entregue através dos hebreus, mas para toda a humanidade, por isso mesmo, foi entregue em uma terra que não pertence a ninguém, ao mesmo tempo em que pertence a todos.

“Rabi Yehoshúa ben Levi disse: ‘Quando Deus começou a pronunciar os Dez Mandamentos, Sua voz se dividiu em sete diferentes vozes que se dividiram em setenta línguas, para que todas as setenta nações pudessem ouvi-Lo desde o deserto do Sinai’” (Shabat, 88a).

Sobre o Monte Sinai, o midrash nos conta: “Quando Deus anunciou que nos entregaria a Torá, os montes Carmel e Tabor vieram até Ele, gabando-se por serem montes altos e grandiosos da Terra de Israel e, portanto, dignos de receber a Presença Divina e Sua Torá. Deus então lhes repreendeu por sua altivez e arrogância e anunciou Sua escolha pelo Monte Sinai, justamente por ser o mais baixo e humilde entre os candidatos, conforme está escrito em Isaías: “elevado e sagrado é o lugar em que Eu habito, mas não deixo de estar com o contrito e humilde de espírito” (Is 57:15); e conforme diz o salmo: “das alturas o Eterno percebe os humildes e adverte os arrogantes” (Sl 138:6)”.

Além do simples deserto, que não pertence a ninguém, e além do humilde Monte Sinai, pequeno em relação a outros grandiosos montes e localizado fora da terra de Israel, temos também Moshé Rabênu, que é descrito pela Torá como sendo “a pessoa mais humilde entre os habitantes da Terra” (Nm 12:3).

E daí aprendemos que é preciso humildade para receber a Torá em sua completude. Ao escolher a menos especial das terras, sem grandes recursos, ao escolher o menor dos montes e a mais humilde das pessoas, o Kadosh Baruḥ Hu nos ensina que Sua sabedoria escapa daqueles que se acreditam mais grandiosos e especiais, mas alcança aqueles que reconhecem sua pequenez diante da imensidão do Divino e de Sua Criação.

Dizia o Rabán Yoḥanán ben Zacái: “se você estudou muito a Torá não se vanglorie disso, pois para isso você foi criado” (Pirkêi Avót 2:8). “Torá” aqui é entendida também como “sabedoria”: se você alcançou grande conhecimento e sabedoria, não se vanglorie, pois esse conhecimento e sabedoria da Torá não existem para nos fazer grandiosos e arrogantes, ao contrário, seu objetivo é nos fazer humildes. Mas, ao mesmo tempo, ser humilde é um pré-requisito para recebê-la, como ensina nossa tradição sobre o deserto, o Monte Sinai e Moshé Rabênu.

Estamos às vésperas da festa de Shavuót, que relembra justamente os eventos do Sinai. Que tenhamos a humildade necessária para receber novamente a Torá e a sabedoria necessária para aplicá-la em nossas vidas com equilíbrio e amor, jamais impondo-a sobre os demais, jamais buscando parecer a mais justa das pessoas, ou a mais virtuosa das almas já surgidas. Juntos, esse equilíbrio e amor nos aproximarão, cada vez mais, de nossa sabedoria milenar, trazendo mais e mais humanidade para nossa espiritualidade. Sem arrogância, sem altivez.

 

Shabat shalom

Moré Theo Hotz