Nesta semana, a Torá nos coloca diante de uma travessia espiritual profunda, que transita entre a sede e a fonte, entre o medo e a possibilidade de transformar maldição em bênção.
Em Chukat, Miriam morre. E, imediatamente, o povo sente falta de água. A tradição associa Miriam ao poço que acompanhava Israel no deserto. Com sua partida, algo seca.
É uma imagem poderosa: há pessoas cuja presença é fonte. Às vezes, só percebemos a profundidade de sua água quando elas já não estão mais.
Nesse cenário de perda e sede, Moshe reage. Diante da reclamação incessante do povo, ele deveria falar à rocha para que dela brotasse água, mas acaba batendo nela.
Há momentos em que a vida também nos encontra assim: sem água, sem paciência, sem palavras. Momentos em que batemos, quando deveríamos tentar falar.
Chukat nos lembra que a fé não elimina a fragilidade, e que a santidade não nos torna invulneráveis. Mesmo Moshe, que falou com Deus face a face, precisou atravessar seu próprio deserto interior.
Em Balak, o perigo muda de lugar. Já não vem apenas da sede interna, mas do olhar externo. Balak vê Israel e sente medo. Chama Bilam para amaldiçoar o povo judeu. Mas a maldição se desfaz antes de nascer.
Quando Bilam contempla Israel do alto -suas tendas, suas casas, suas famílias- de sua boca brota uma das mais belas bênçãos da nossa tradição:
מַה טֹּבוּ אֹהָלֶיךָ יַעֲקֹב
Ma tovu ohalecha Iaakov
“Como são esplêndidas as tuas tendas, ó Jacob.”
A maldição se torna bênção. E aprendemos que nem todo olhar externo define quem somos.
Juntas, Chukat e Balak nos ensinam que a travessia não é feita apenas dos caminhos visíveis. Há fontes que continuam correndo debaixo da terra. Há palavras que, antes de ferir, podem ser transformadas e contruir. Há bênçãos que não chegam como resposta imediata, mas como processo revelador que muda não só o olhar mas que constrói uma vida agora transformada.
Talvez seja esse o convite deste Shabat: não apressar o deserto, não negar a sede, não permitir que o medo seja o único intérprete da nossa história.
Que possamos atravessar com mais escuta do que impulso, com mais presença do que reação, e com a confiança delicada de que, mesmo quando a pedra parece muda e o olhar do outro parece ameaça, algo ainda pode se abrir em água, em palavra, em bênção.
Shabat Shalom!
Rabino Dario Bialer
