Na semana passada lemos a parashat Shoftim, onde era ordenada a constituição de um sistema de justiça organizado. “Juízes e oficiais nomearás… para que julguem ao povo com justiça reta”. E a partir daí, uma sequência de normas se seguirá para que a justiça alcance os diferentes aspectos da vida das pessoas. A grande maioria delas estará concentrada na parashat Ki Tetsê, que lemos nesta semana. 

E logo na primeira delas, nos deparamos com uma imagem perturbadora, já praticamente naturalizada após anos de leitura do seu texto, mas um fato novo me fez voltar a me incomodar e a tentar entender que sentido tem uma regra que se refere a uma bela prisioneira de guerra pertencente ao povo derrotado em batalha, que é levada pelo vencedor porque este a deseja? Pode haver alguma justiça em uma regra como esta?

Sem qualquer pretensão de defender a Torá, voltei a reler para tentar encontrar algum princípio subjacente que pudesse tornar esse texto vivo ainda em nossos dias. Muitos, antes de nós, também se incomodaram ao lê-lo. Mas a tradição rabínica nos mostrou que a Torá não parte do ideal; parte do real e caminha em direção ao ideal. O texto que choca é o mesmo texto que planta sementes de justiça.

Quando nós lemos hoje o texto e nos chocamos, estamos entrando em uma conversa que já dura milênios. É a mesma conversa que transformou leis duras em caminhos de uma justiça possível. 

Ki Tetsê não aplaude o sequestro de mulheres. Ela refreia o impulso, impondo o respeito ao luto da prisioneira e proibindo sua venda e sua escravização. Nessa concessão, a dignidade é preservada. O Talmud, no tratado Kidushin (21b), explica que a Torá falou ‘contra a inclinação ao mal’. O texto ancestral apresenta uma concessão à realidade brutal da guerra, não um ideal. Em um mundo de barbáries e guerras tribais, aquele era o primeiro passo de uma civilização que começava a aprender que há limite para as nossas ações, que não podemos nos mover por instintos, mas de forma racional e regulada.

Ki Tetsê também trará mais adiante a proibição de sequestro e da escravização, embrião do combate ao tráfico humano. A tensão entre o texto da mulher cativa e a proibição de sequestro está presente na mesma parashá. O judaísmo é essa conversa: cabe a nós escolhermos entrar nela e desenvolver a ideia de justiça. 

Que cada um de nós nos permitamos a olhar para este e outros textos com seriedade, enfrentá-los e buscar sempre a justiça. 

Pois como a própria Torá nos ensina: Tsédek, Tsédek, Tirdof – Justiça, sempre a justiça, perseguirás!

Shabat Shalom!