Podemos encontrar o argumento perfeito e, mesmo assim, não convencer o outro. Ter a última palavra e já não ter com quem conversar. As feridas de uma discussão não se curam apenas com a comprovação de que estamos certos.
Mesmo feridos, há outro caminho. É sobre isso que a Torá nos fala nesta semana.
Na parashá Vaierá, Abraham está à entrada da tenda, ainda se recuperando da circuncisão. Sente dor. Precisa de cuidado. Mas sua dor não ocupa todo o seu ser.
Ele consegue olhar além e enxergar o outro. Assim Abraham avista três viajantes e corre ao encontro deles. Oferece água, alimento e descanso antes de saber o que o aproxima ou separa daqueles homens.
Na tradição judaica, essa disposição tem um nome: חֶסֶד chésed. A bondade que ganha corpo em um gesto e oferece à vida do outro um lugar na nossa.
Ao abrir espaço para os viajantes, Abraham também permanece aberto ao que aquele encontro pode trazer.
A dor pode nos levar a viver em permanente defesa. O chésed interrompe essa espera pelo pior.
Um gesto de cuidado, vindo de quem imaginávamos distante, pode devolver lugar à confiança.
Nossa mágoa, mesmo justificada, não precisa ter a última palavra sobre quem somos. Ainda podemos ser uma presença que ampara.
A bondade fortalece os dois: quem recebe encontra apoio; quem oferece reconhece em si a capacidade de criar algo além da própria dor.
Em tempos em que os debates se tornam trincheiras, isso exige coragem. Continuar fazendo bem a alguém com quem discordamos. Compartilhar a mesa, amparar uma família, sustentar diferenças sem permitir que elas ocupem a vida inteira.
Há uma sabedoria preciosa na tradição rabínica: preservar a discussão e preservar o vínculo. A responsabilidade pelo outro permanece mesmo quando o entendimento não chega.
Na tenda de Abraham, ninguém precisou vencer uma discussão para receber um lugar.
O cuidado veio antes de qualquer acordo.
Talvez ainda tenhamos muito a dizer uns aos outros. Que haja uma mesa à qual possamos voltar quando faltarem as palavras.
Shabat Shalom
Rabino Dario Bialer
