O Deus do fogo é o Deus que Moisés conhece. Foi assim que ele o encontrou pela primeira vez na sarça ardente. Ele passou quarenta dias exposto a esse fogo divino no Sinai. Não por casualidade, no momento em que a liderança de Moisés é questionada na Parashat Côrach, Moisés dirá aos manifestantes que tomem seus fogareiros, porque de alguma maneira ele entendia que Deus se revelaria a eles através do fogo.
E de fato, a Torá vai dizer que “um fogo saiu do Eterno e consumiu os duzentos e cinquenta representantes que ofereciam incenso”. [Núm. 16:35]
Entendendo que a associação divina com o fogo era amedrontadora, o próprio Deus propõe uma visão diferente da Sua própria manifestação. “Fale aos israelitas e pegue deles um cajado de cada chefe de casa ancestral… Inscreva o nome de cada um em seu cajado… O cajado do candidato que eu escolher brotará… No dia seguinte, Moisés entrou na Tenda da Aliança, e ali o cajado de Aarão da casa de Levi tinha desabrochado; gerou brotos, produziu flores e carregou-se de amêndoas.” [Núm. 17:17-23]
Talvez a nova imagem se proponha a pensar em uma liderança religiosa orientada ao crescimento e ao florescimento, e não à punição incendiária.
A amendoeira em flor representa a liderança construtiva, e não destrutiva. Mesmo que ambas as imagens pudessem ser representativas de Deus, a relação a ser estabelecida entre o povo e seus líderes não precisava estar baseada no medo, mas numa relação de confiança. No teste do cajado de Aarão, o povo testemunha um milagre que não se centra na morte violenta e repentina e na punição, mas sim no florescimento e na prosperidade.
“Vocês foram longe demais!” (Rav lachém!) [Núm. 16:3], diz Côrach e os 250 representantes eleitos pela Assembleia a Moisés e Ararão. E a resposta de Moisés a Côrach e a toda sua companhia é exatamente a mesma: “Vocês foram longe demais!” (Ráv-lachém!) [Núm. 16:7]
Talvez possamos aprender daqui que, quando o diálogo se esgota no “Rav lachém” – quando ambos os lados se sentem invadidos e o conflito parece insolúvel, a resposta não deve ser mais fogo, mas sim a busca pelo que ainda é capaz de florescer.
Uma liderança sensível é aquela que compreende que o cajado, embora pareça um pedaço de madeira seca e rígida, guarda em si a potência da vida. Enquanto o fogo consome o que já existe para provar um ponto, o florescimento cria o que ainda não é para construir um futuro. Moisés, o homem do Sinai, resolve o conflito com a justiça imediata e externa do fogo. Mas Deus, em Sua pedagogia, ensina que a autoridade de Aarão não deveria vir da capacidade de punir, mas da habilidade de nutrir e dar frutos.
A esperança reside justamente nessa transição: o líder não é escolhido por quão alto ele pode queimar, mas por quão profundamente ele pode fazer a comunidade florescer. Em um mundo de respostas incendiárias, a Parashat Côrach nos convida a ser líderes que, em vez de incinerar a oposição, escolhem o caminho da amendoeira: aquela que, segundo a tradição judaica, é a primeira a despertar e florescer, simbolizando a pressa e a diligência em trazer a vida de volta ao mundo (Rashi sobre Núm. 17:23).
Como ensina Hillel no Pirkei Avot (1:12): “Sê dos discípulos de Aarão, amando a paz e perseguindo a paz, amando as criaturas e aproximando-as da Torá”. O fechamento de Aarão não foi um decreto de morte, mas um sinal de vida. Que possamos aprender que a verdadeira solução para as crises de liderança não está em quem grita mais alto que o outro “foi longe demais”, mas em quem tem a sensibilidade de transformar um cajado seco em um jardim de possibilidades.
Shabat Shalom!
Rabina Kelita Cohen
