Há alguns anos, recebi uma mensagem de um amigo que dizia que a Academia da Língua Hebraica tinha adotado novos parâmetros para a conjugação de gênero: grupos em que a maioria fosse constituída por mulheres passariam a adotar o sufixo feminino (“ot”) mesmo que neles houvesse uma minoria de homens; grupos em que a maioria fosse masculina continuariam adotando o sufixo masculino (“im”). Em tempos de fake news, é sempre apropriado fazer uma checagem antes de difundirmos notícias assim — e foi isso que eu fiz. Rapidamente, descobri que não passava de um boato e comuniquei ao meu amigo que, apesar de ambos termos ficado animados com a notícia, ela ainda não era verdadeira.

A questão do gênero que usamos ao nos referirmos a grupos que incluem homens e mulheres têm chegado cada vez mais frequentemente por aqui, para quem fala português. De um lado, há quem aplauda os esforços, salientando que eles ampliam o senso de acolhimento e inclusão; de outro lado, há quem critique o chamado “politicamente correto”, apontando para o fato de que as regras gramaticais precisam ser respeitadas se quisermos garantir a consistência do idioma. Se alguém incluir, além do “todos” e “todas”, também um “todes”, é aí que a discussão ganha corpo e os ânimos ficam mais exaltados.

Na parashá desta semana, Itró, temos o momento da Revelação no Monte Sinai, com raios e trovões e a entrega das Dez Afirmações (que a maioria chama de “Dez Mandamentos”). De alguma forma, as Tábuas do Pacto com as Dez Afirmações se tornaram um ícone na cultura ocidental para regras básicas que todos e todas (todes também?!) devem conhecer e respeitar. Mesmo assim, os comentaristas divergem sobre a disposição do texto nas Tábuas.

Há quem diga que as Afirmações estão dispostas com as cinco primeiras em uma Tábua e as cinco últimas na outra. No entanto, as cinco primeiras Afirmações, que lidam com a relação da pessoa com o Divino (ou com práticas religiosas), são bem mais extensas enquanto as cinco últimas, que lidam com a relação entre uma pessoa e outra, são bastante curtas. Desta forma, ao dispormos cinco em cada Tábua, haveria uma assimetria na quantidade de texto em cada uma delas. Alguns comentaristas argumentam que, assim, seria possível escrever as obrigações entre um ser humano e outro em letras maiores, indicando sua importância para uma vida religiosa judaica.

Outros comentaristas argumentam que cada uma das duas Tábuas continha as Dez Afirmações: na primeira, a versão que aparece na parashá desta semana [1]; na segunda, a versão que aparece na parashá Vaetchanán [2]. Desta forma, teríamos um lembrete permanente da diversidade e do pluralismo inerentes à tradição judaica.

O que esses comentários não endereçam é quem deve ser incluído no público a quem essas afirmações foram ditas. De alguma forma intuímos que todos os homens, mulheres e crianças que estavam presentes naquele momento faziam parte deste público. A décima afirmação, no entanto, coloca em cheque esta percepção intuitiva, ao afirmar “não cobice a casa do teu próximo e não cobice a esposa do teu próximo, nem teu escravo ou tua escrava, teu boi, teu jumento e tudo o que o teu próximo tem.” O texto não diz “não cobice o cônjuge do teu próximo” ou “não cobice o marido ou a esposa do teu próximo.” 

Parece que o texto se esqueceu de ser politicamente correto em um dos momentos centrais da experiência judaica e, diferentemente dos textos que escrevemos hoje em dia, não podemos alterá-lo para que seja mais inclusivo. Como, então, dar resposta a este desafio? Será que há algo nos valores da centralidade da relação com o próximo e do pluralismo judaico expressos na diagramação do texto nas Tábuas da Torá que podem nos ajudar?

Perguntaram ao rabino Menachem Mendel Morgensztern, um mestre chassídico do século 19, por que Shavuot é chamada a festa da entrega da Torá e não a festa do recebimento da Torá. Afinal de contas, do ponto de vista humano, a Torá foi recebida — é apenas do ponto de vista Divino que ela foi entregue. O rabino respondeu: “A Torá foi dada em um dia, mas a recebemos a todo momento.” Receber a Torá implica a disposição de lê-la, entendê-la, interpretá-la e também duelar com ela quando sentimos que o texto central da nossa tradição não nos enxerga como realmente somos. Entender que a Torá é nossa inclui não ter medo de apontar para passagens que gostaríamos que tivessem sido escritas de forma distinta, mais inclusiva, com valores mais próximos dos que temos hoje. Quando tivermos essa coragem, aí sim, teremos vivenciado a Entrega da Torá.

Que este dia não tarde e chegue para todos ainda nos nossos dias!

 

Shabat Shalom!

Rabino Rogério Cukierman

 

[1] Ex. 20:2-14

[2] Deut. 5:6-18

Confira mais comentários sobre a parashat Itró: