Quando nos foi entregue a Torá, mais do que um livro fechado de regras e leis, nos foi entregue uma responsabilidade. A grande responsabilidade de olhar e revisar essas leis o tempo todo.
 
Desde esse grande momento, os sábios de cada geração se esforçaram para entender o que a Torá queria dizer, e como ela se aplicaria aos novos casos que não estavam legislados. Estamos há várias gerações desde então, não seria de se estranhar que nossa vida já não fosse um reflexo direto da vida da geração que recebeu em primeira mão essas leis.
 
Alguns com certeza gostariam de pensar na Torá como esse conjunto de leis completamente fechado e definido. Dessa maneira nos restariam duas possibilidades: cumprir ou não cumprir. Outros certamente justificam suas ações com a famosa frase “está escrito na Torá”.
 
Nós vivemos um judaísmo rabínico e não bíblico.
 
Quando o povo tinha acabado de sair do Egito e Moshé, sozinho, teve que mediar todas as situações, desde as mais simples às mais complexas. Seu sogro Itró o aconselha a dividir sua função com outros “capazes, tementes a Deus, homens de confiança” (Êxodo 18:21). Agora o povo está em sua última etapa juntos, em breve estarão espalhados por toda a Terra de Israel.
 
A parashá dessa semana começa justamente reforçando a necessidade de apontar juízes para cada uma das tribos e cada uma das cidades. Mas isso não significa que cada juiz apenas replicará a lei geração após geração. Para isso não precisaríamos de um juiz. A grande capacidade de um juiz é justamente ler a lei e aplicá-la à realidade.
 
Na própria Torá está escrito: “E virás aos sacerdotes, levitas e ao juiz que houver naqueles dias, e indagarás e te anunciarão a sentença do juízo”. Desta frase que parece inocente surge o conceito de mara deatra, o professor do lugar. Porque um juiz só pode exercer sua função corretamente quando conhece a sociedade na qual tem que julgar.
 
O próprio Midrash diz que essa é a autoridade do momento, por mais que talvez não seja reconhecidamente tão conhecedor como juízes anteriores, deve ser respeitado e seguido.
 
Hoje o rabino de cada comunidade é um mara deatra. E é por isso que cada uma tem suas maneiras de viver e vivenciar o judaísmo. Porque cada comunidade é composta por pessoas diferentes e requer que as decisões sejam tomadas diferentemente.
 
A lei só pode existir na realidade das pessoas, já que, segundo os sábios do próprio Talmud, não podemos legislar uma lei que as pessoas não possam seguir.
 
 

Shabat Shalom.
Rabina Fernanda Tomchinsky-Galanternik.