Ao entrar em contato com algo novo ou alguém novo, qual é sua primeira reação? Qual é sua disposição? Boa? Ruim? Confiante? Suspeita? A postura é “tudo é bom até que se prove o contrário” (como sugere a justiça a respeito da inocência) ou “tudo é ruim até que se prove o contrário”? Ou será que depende do tema? Ou, talvez, de quem o apresenta, se é ou não confiável ou querido.
No mundo das ideias existem esquemas bem diferentes a este respeito.
De um lado, há os que acreditam que a natureza é boa, por ser natureza, por ser divina, por ser sábia, por ser misteriosa, por ser o que temos. Essa postura aparece em linhas médicas, especialmente as alternativas, que tentarão evitar medicamentos e tomarão todos os cuidados ao determinar que é necessário, como último recurso, alguma intervenção. Também em visões nutricionistas e em abordagens psicológicas e pedagógicas: deixar fluir, descobrir, elucidar e respeitar vontades, desejos, capacidades e ímpetos espontâneos e naturais, reconhecidos, não apenas como verdadeiros, mas também como bons em si. Na educação, essa visão está por trás das pedagogias mais abertas: só escuta o educando, ele sabe o que quer saber, quando, quanto e como. Não deve haver programa de estudos pré-estabelecido que imponha estudar trigonometria na 8ª série às 8h da manhã das terças-feiras. A educação, como a nutrição, como a terapia, como a medicina, devem atuar da mesma maneira que o pedaço de madeira, o qual se coloca do lado de uma árvore fina quando começa a se curvar no seu próprio crescimento natural, a risco de cair e quebrar.
Essa visão terá dificuldades com ímpetos violentos, com desejos perversos, com tendências à raiva, à agressão, à vitimização, ao egoísmo, à insensibilidade, com doenças mortais que surgem da própria natureza, com tsunamis e terremotos, com feras que matam com toda crueldade suas vítimas e as comem aos poucos, com sadistas e masoquistas e com psicopatias e depressões claramente explicadas na morfologia genética.
Do outro lado, há os que, como Freud e Hobbs, acreditam e demonstram que as pessoas são naturalmente egocêntricas e egoístas, que veem no próximo, a princípio, uma ameaça e, que somente com a ajuda da civilização, aprenderão a reconhecer o direito e o sentimento do outro, a legitimá-lo e a aceitá-lo. Por interesse, ou talvez por uma nobreza apenas adquirida com muito esforço, e na contramão da natureza vil. Essa postura terá dificuldades de explicar a magia da beleza do pôr do sol, da sabedoria das fêmeas animais, que dão a luz sem hospitais, dos bebês animais que nascem, andam e sobrevivem, das crianças e adultos de diversas espécies, incluindo a humana, que acabam se cuidando e se doando ao bem alheio, muitas vezes em forma intuitiva, sem preconceitos, nem medos nem suspeitas.
A parashat Reê parece sugerir uma postura intermediária, talvez, com uma leve tendência à primeira ideia. Logo no começo, fala do advento da benção e da maldição, mas de um modo diferente. “… a Benção que ouvirão… e a maldição se não ouvirem…” (Deuteronômio 11:26).
Os comentaristas clássicos atentam à diferença entre as preposições “que” e “se” , e sugerem que a benção vem sozinha, naturalmente, apenas seguindo o curso da escuta autêntica do verdadeiro, que é divino. Já a maldição, ou o mal, é condicional, só acontecerá SE formos contra a escuta natural. Ou seja, existe um bem intrínseco, mas deve ser ouvido e performado, com proatividade, deve ser desenvolvido para se realizar e acontecer.
De algum modo diz: o natural tem um potencial bom, mas precisa de cuidado e trabalho deliberado, pode e deve ser aprimorado e aperfeiçoado, constantemente.
Pirkei Avot, o tratado de princípios de sabedoria e ética do século 3, fala a respeito da sabedoria de um modo diferente: quem não aumenta seus conhecimentos, os diminui. O que abandonamos ao devir estraga. Tudo precisa de vontade e intervenção deliberada. Assim, também, o comentário de Deus diante da geração de Noé, antes do dilúvio: o impulso humano é ruim desde sua mocidade.
Por fim, a prática do Brit Milá poderia indicar a postura intermediária: a natureza é boa, mas melhorável. Talvez para que nossa vida tenha sentido: aperfeiçoar a existência, letaken olam.
Shabat shalom,
Rabino Dr. Ruben Sternschein
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