Nem sempre a vaidade é superficial. Nem sempre o marketing é uma mentira ou uma inflação de uma pequena verdade em prol de um interesse mesquinho e egoísta. Nem sempre promover uma imagem é apenas egolatria e poder.

Na parashá da semana, Deus resolve acabar com uma grande quantidade dos hebreus libertados pois eles temem a liberdade e preferem voltar à escravidão egípcia. 

Aceitam facilmente a versão de dez dos doze espiões que foram mandados para analisar a terra de Israel e seus habitantes, segundo o qual a terra consome os habitantes e apenas resistem gigantes que jamais permitirão que ninguém se introduza nela.

Nesse momento, Moshe intervém em favor dos judeus e convence Deus com um argumento típico de um assessor de imagem: “o que vão dizer os egípcios sobre um Deus que tirou seu povo para matá-lo no deserto por falta de capacidade para levá-lo com vida até o destino final?”.

Alguns mestres medievais, como Rabi Istchak Arama e Abarbanel, reclamaram absortos perguntando-se como é possível que Moshe pense que Deus se importaria com sua imagem e, acima de tudo, diante de pagãos como os egípcios! 

Nachmânides sugere uma solução magistral: não é a sua imagem em si, pela sua vaidade, pelo seu “ego”, o que preocuparia Deus e Moshe, e sim o que implicaria para a humanidade e para o mundo — um Deus que destrói tudo, uma dinâmica mundo-Deus determinada e caracterizada pela raiva e pelo mútuo afastamento. Ou seja, o cuidado da imagem por motivos altruístas, pelo bem de quem observa a imagem, a interpreta, a incorpora, se constrói a si próprio em função dela e reage a ela.

Nossa imagem tem a ver com o que representamos e não apenas com quem somos. Se um judeu identificado como tal age corretamente em público — cedendo um assento a uma grávida no metrô, ajudando um idoso a atravessar a rua, contribuindo com a campanha de agasalho, fazendo negócios limpos — logo os judeus, como coletivo, são identificados com esses valores.

Se um judeu liberal, um cipiano, participa de sua comunidade com entusiasmo, aprende, pensa, ensina, se comove e vive uma vida mais significativa, logo o judaísmo liberal e a CIP serão identificados como algo de valor e significado.

A maneira como falamos com nossos filhos, pais e cônjuges transmite o que eles aprenderão quando nos verem e ouvirem.

Shmuel Yosef Agnon, prêmio Nobel israeli de literatura no ano 1966, escreveu que quando alguém falece dizemos o kadish porque nos preocupamos com a imagem que fica da vida diante do afastamento desse ser querido. O kadish tenta continuar sustentando Deus e o mundo e sua dignidade na hora da perda de quem representava isso.

Que possamos nesta semana compreender tudo o que representamos e manter a maior dignidade possível de nossas múltiplas imagens. Em prol dos que delas aprendem a viver e ser.

 

Shabat Shalom,

Rabino Ruben Sternschein