A cada quatro anos o ritual é o mesmo: alguns, satisfeitos com o resultado; outros, chateados porque queriam que alguém diferente vencesse. Tanto nas eleições presidenciais quanto na Copa do Mundo são muito frequentes os casos em que as pessoas estão tão investidas no resultado que chega a parecer que são elas mesmas que estão na disputa. No entanto, se na Copa do Mundo havia uma quase unanimidade torcendo pela seleção brasileira até sua desclassificação, com relação às eleições, a pluralidade política dentro da comunidade judaica garantia intensas divergências quanto aos candidatos preferidos.

A tradição judaica apresenta posições ambíguas com relação à proximidade de governos e governantes. Até mesmo dentro de uma mesma obra, encontramos posições conflitantes. De um lado, há o reconhecimento de que o poder corrompe, e que os sacrifícios necessários para manter a proximidade daqueles que detêm o poder podem corromper também. Em Pirkei Avot encontramos, por exemplo, um trecho que afirma “tenha cuidado com as autoridades, pois elas não fazem amizade com uma pessoa, exceto para suas próprias necessidades; eles parecem amigos quando é de seu próprio interesse, mas não ficam ao lado de um homem na hora de sua angústia.” [1] Na mesma obra, o sábio Sh’maiá costumava dizer “Ame o trabalho, despreze posições de poder; e não fique muito à vontade com as autoridades.” [2] Comentando sobre a opinião de Sh’maiá, o rabino Shmuly Yanklowitz afirma: “Vamos ser claros. Não devemos desprezar o poder. O poder pode ser usado para alcançar tanto bem em grande escala. Em vez disso, desprezamos as tentações do dinheiro e da fama, que muitas vezes acompanham o poder. Devemos virar as costas ao poder que é abusado para ganho próprio.” [3] Estas opiniões, provavelmente refletiam experiências pessoais negativas que seus autores tinham experienciado com os detentores do poder na sua época.

De outro lado, no entanto, encontramos opiniões que expressam experiências positivas com o papel que o governo exerce na sociedade. Na mesma obra de Pirkei Avot, rabi Chanina, o vice-sumo sacerdote dizia: “reze pelo bem-estar do governo, pois se não fosse pelo medo que inspira, toda pessoa engoliria seu vizinho vivo.” [4] O Talmud, comentando sobre essa passagem, afirma “assim como no caso dos peixes do mar, no qual o maior peixe engole os outros peixes, assim também no caso das pessoas, que se não fosse o medo do governo, a pessoa mais poderosa engoliria as outras.” [5] Aqui, uma postura que valoriza muito mais a figura governamental no papel de mediação de conflitos sociais, especialmente na proteção dos segmentos mais vulneráveis.

Na parashá desta semana, Vaichí, lemos sobre o falecimento de Iossêf, a criança mimada que aprendeu de seus erros e se tornou um grande estadista, o vice-rei do Egito. A proximidade dos filhos de Israel com uma autoridade desta envergadura, alguns argumentam, foi o que possibilitou à família sobreviver à seca que se abateu sobre a região e, desta forma, dar origem ao povo judeu. Uma outra interpretação possível, no entanto, é que o privilégio do qual desfrutaram os filhos de Israel pela proximidade com Iossêf foi o que deu origem à antipatia dos egípcios pelos israelitas, que culminou no processo de escravização sobre o qual leremos na próxima parashá.

As distintas opiniões a respeito da relação entre a comunidade judaica e o governo apontam para um equilíbrio que, de um lado reconhece o papel positivo que o Estado e seus governantes podem ter na garantia da ordem e da justiça social sem, de outro lado, corromper nossos valores na busca por aproximação do poder político pelas vantagens e privilégios que essa proximidade possa trazer. 

Que, além das nossas palavras, também nossas ações em 2023 nos aproximem de uma sociedade mais justa, mais acolhedora, que reconheça a força de sua diversidade e a potência que é seguir o seu sonho!

 

Shabat Shalom e Feliz 2023!  

Rabino Rogério Cukierman

 

[1] Pirkei Avot 2:3

[2] Pirkei Avot 1:10

[3] Shmuly Yanklowitz, “Pirkei Avot: A Social Justice Commentary”, comentário sobre Pirkei Avot 1:10.

[4] Pirkei Avot 3:2

[5] Talmud Bavli Avodá Zará 4:3

Confira outros comentários sobre a parashat Vaichí: