“Um povo será mais forte que o outro e o maior servirá o menor”. Essas são as palavras proféticas que Rivcá escuta ao sentir como os gêmeos lutavam em seu ventre. Baseada nessa promessa, ela dá início aos seus planos para que ela se concretize. Essa concretização virá através de uma benção dada pelo patriarca Itschak a seu filho.
 
O comentarista Abarbanel divide as bênçãos do Tanach em três: Deus ao homem; homem a Deus e homem a seu próximo. Neste último caso temos o ser humano como canal de uma mensagem divina.
 
A matriarca Rivcá se desdobra e coloca a si própria em risco de ser amaldiçoada para garantir que a bênção do patriarca fosse para o filho que ela entendia, segundo a profecia, ser o correto: Iaacov e não Essav.
 
Ao invés de esperar e ver se a promessa divina aconteceria por si só, ela resolve partir para a ação. A benção só poderia ser dada pelo pai, mas talvez essa mãe tenha abençoado também.
 
Baseado nas palavras de Abarbanel, as atitudes em relação ao outro também podem ser canais divinos. Bênçãos podem vir também na forma de ações e não apenas de palavras.
 
Um abraço, um carinho, um olhar, um gesto, entre tantas outras formas que uma pessoa pode usar para expressar amor sem palavras também são canais para trazer ao mundo o Amor Divino. Quando somos sinceros e honestos em relação ao outro, flui através de nós esse amor que é maior do que apenas nós mesmos.
 
Se as palavras de brachá, de benção, não vierem acompanhadas dessa benção sem palavras dificilmente possa entrar em alguma das três categorias. Por isso, Itschak tem a necessidade de abençoar a Iaacov novamente antes que fuja de seu colérico irmão. A primeira vez foi baseada em um engano, a segunda na sinceridade.
 
A falsidade, o engano e a mentira duram pouco, e não permitem o crescimento de ninguém. Porque essa é a intenção de uma brachá, incentivar que o outro cresça, melhore, se supere. Às vezes temos que sair do caminho padrão. Temos que nos arriscar.
 
Ao nos transformarmos em canais divinos, também estamos expondo um pouco de quem nós somos no mais íntimo. Permitindo essa conexão com o outro fazemos com que nós cresçamos também.
 
A brachá entre seres humanos não é só a abertura de um canal com o inefável, mas também a abertura do canal com o outro. Como vivemos dia a dia com o outro, precisamos reforçar esse canal para que seja fluido, sincero e com amor.
 
Arrisquemo-nos para criar uma sociedade de mais amor. Cada um de nós tem o potencial de trazer ao mundo palavras e abraços divinos. Que possamos incentivar essa centelha divina em cada um de nós e em cada um que nos rodeia.
 
Shabat Shalom.
Rabina Fernanda Tomchinsky-Galanternik