Que sentido busca um leitor quando lê um texto? O sentido das palavras? O sentido da vida? O sentimento das personagens? A moral da história? Cada um desses sentidos pode conduzir o leitor a um sentido (orientação) diferente na sua interpretação.
Em um único texto se encontram diferentes sentidos ou intencionalidades. Está a intenção do narrador, que é autônoma à intenção das personagens mesmas, e por último, a intenção do leitor, que se molda a partir da sua história e das suas experiências prévias. Neste caso, haveria tantas intenções quanto o número de leitores do mesmo texto, afinal, cada experiência é única.
O próprio termo “sentido”, no português, é uma dessas palavras que reúne em si mesma uma série de significados e sentidos, que vão desde acepções físicas e sensoriais (os sentidos do corpo), passando pela ideia de orientação (o sentido do rio), até formas mais idealizadas e subjetivas (o sentido das palavras).
A história de Iossef, descrita na parashá desta semana, é um exemplo dessa combinação de sentidos múltiplos. O narrador onisciente relata que “Iossef não podia mais se conter diante de todos os que estavam em sua presença, e gritou: ‘Saiam todos de perto de mim!’” [Gn. 45:1]. Nesse momento, Iossef se revela aos seus irmãos.
A reação dos irmãos, no entanto, foi o silêncio. Que significado tem o silêncio? O narrador interpreta o silêncio dos irmãos como uma reação ao medo. “Mas seus irmãos foram incapazes de lhe responder – eles se encolheram de medo dele” [v. 3].
Além de medo, o silêncio pode ser interpretado como incredulidade ou perplexidade, omissão ou apatia (como no caso da ONU em relação aos acontecimentos do 7 de outubro), consentimento (o famoso “quem cala, consente”), ou mesmo aquilo que ainda não é possível ser traduzido em palavras (como no trauma vivido por muitos sobreviventes da Shoá). O silêncio grita sentidos.
Mas a percepção de Iossef é outra. Ele interpreta o silêncio dos irmãos como uma perturbação ou desgosto por tê-lo vendido, e busca consolá-los, dizendo que não foram eles quem o enviou ao Egito, mas Deus, para assegurar a sobrevivência na terra e mantê-los vivos [v.7].
Iossef quer acolhê-los (aqui entra a minha subjetividade como leitora). “Venham, aproximem-se de mim!” [v. 4]. Mas os sábios do Talmud veem nessas palavras de Iossef um sentido mais corporal e físico. No midrash [Bereshit Rabá 93:8], dizem os sábios: “Ele [Iossef] viu que eles [seus irmãos] recuaram e disse a si mesmo: ‘Agora meus irmãos estão envergonhados’. Portanto, ele os chamou e mostrou-lhes que havia sido circuncidado”. Há muita corporeidade imbricada em muita imaterialidade.
Toda essa performance se desenrola porque, na parashá anterior “José reconhece seus irmãos, mas eles não o reconhecem” [Gen. 42:8]. Na visão do rabino Johnatan Sacks z”l, o não reconhecimento de Iossef não está associado aos aspectos perceptíveis a olho nu. Ele vê nessa narrativa um significado que explora a fonte mais profunda dos conflitos humanos: a rivalidade entre irmãos. A descoberta de que Iossef está vivo desenterra um passado já superado.
É preciso invocar a Levinas e sua teorização sobre o rosto do outro para tentar ir além no entendimento do que aconteceu nesse fragmento da história. O não reconhecimento de Iossef já era um fato na narrativa primeira (quando ele foi vendido como escravo), pois ao não reconhecer o rosto do irmão, ao não reconhecê-lo como uma alteridade com a qual fosse possível estabelecer relações de sociabilidade, abriu-se também a possibilidade da violência e da injustiça.
Agora eles se deparam com os seus segredos compartilhados, com seus temores desvelados, sua má-conduta escancarada. Eles precisam lidar com seus monstros internos antes de partir para o abraço. E tudo isto, em uma fração de segundos.
E nessa perspectiva, a interpretação do midrash ganha um novo sentido, que vai além da mera corporeidade. Ao ver a circuncisão no corpo de Iossef, eles se deparam com uma alteridade que não é um outro radical em si mesmo. É parte de quem eles são. E ao reconhecer-se nesse outro, abriu-se nesse ato a possibilidade de reconciliação, perdão e cura.
Que sejamos capazes de ver a humanidade no outro, para que não percamos a nossa própria humanidade.
Shabat Shalom!
Rabina Kelita Cohen
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