Três histórias paralelas se encontram nesta semana. Uma delas é narrada na parashá Vaiêshev, enquanto a segunda faz parte dos eventos que darão lugar à narrativa de Chanucá. Ambas confluem nos recentes acontecimentos de 7 de outubro.

Tamar, Judite e Michal. Três mulheres cujas histórias únicas de heroísmo e coragem se emparelham e se fundem em um único relato, com poder de acender uma luz em meio à escuridão.

Na parashá desta semana, Tamar, nora de Iehudá, filho do patriarca Iaacov, se encontra em uma condição de extrema vulnerabilidade [1]. Isto porque, após ter ficado viúva de Er (filho mais velho de Iehudá), e logo de Onán (seu segundo filho), Iehudá resiste entregá-la a seu terceiro filho, Shela. Nos tempos bíblicos, as viúvas eram descritas como a categoria de pessoas em condição de maior vulnerabilidade (junto com os órfãos e o estrangeiro). Isto porque, sem filhos, não havia quem herdasse a porção de terra do falecido marido e, portanto, havia para ela poucas formas de sustento.

Diante da leniência de Yehuda em ajudar Tamar a produzir um herdeiro que pudesse herdar a propriedade de Er e garantir sua subsistência, ela se despe do luto [2], se camufla e sai ao encontro de Yehuda. Tão pronto ele cruza seu caminho, acreditando ser uma prostituta, tem relações com Tamar e ela engravida. Sua atitude corajosa lança luz sobre uma injustiça culturalmente aceita à época, o que promoverá mais adiante uma revisão nas leis de herança envolvendo mulheres.

Além do texto da Torá que lemos nesta semana, outro caso com um enorme paralelismo vem à tona nesta semana, relacionado com Chanucá. Conta no livro de Judite (um texto judaico pós-bíblico considerado apócrifo) que, frente à invasão da terra de Israel no período helenístico por um exército estrangeiro, uma viúva judia retira as roupas do luto, se veste para a batalha e usa sua beleza e inteligência para eliminar a ameaça que cercava sua pequena cidade, Betuliá [nome alusivo à palavra hebraica “betulá”, que significa “virgem”]. Com esse ato, Judite não apenas se salva, mas também livra as jovens de Israel da ameaça de invasão de suas terras e dos seus corpos. Por sua iniciativa, “ninguém nunca mais espalhou terror entre os israelitas durante a vida de Judite, ou por muito tempo após sua morte” [3].

Mas o tempo passou e Israel voltou a vivenciar novos tempos de terror indescritíveis. E novamente, a valentia de mulheres encontrada nos textos da nossa tradição demonstram não ser uma mera ficção, ou apenas o relato de tempos épicos. Ao ler as muitas histórias de reação à invasão pelos terroristas do Hamas em solo israelense, notamos que esses casos bíblicos parecem ser nada menos do que representações arquetípicas da mulher judia ou israelense. Na nefasta manhã de 7 de outubro, quando ainda não se tinha uma dimensão exata do que estava acontecendo em Israel, uma unidade de tanques da Brigada Parán operada por mulheres entrou em ação quase instantaneamente [4]. Composta por jovens em torno de 20 anos de idade, as tripulantes dos tanques foram as primeiras mulheres soldadas a entrar em combate ativo em veículos blindados, de acordo com as Forças de Defesa de Israel (IDF).

Uma dessas jovens é Michal, a segunda tenente que esteve a cargo de uma das brigadas. Ela conta que saíram da sua base na fronteira com o Egito pouco depois das 6h30 da manhã e se dirigiram no sentido Norte, evitando a infiltração terrestre de mais de 50 terroristas ao longo da fronteira com Gaza. Após 17 horas de combate, ela pôde garantir a segurança dos moradores do Kibutz Holit e impedir que ali houvesse um massacre semelhante ao ocorrido em Kfar Aza. Michal não teve tempo sequer de se vestir de luto pelos seus compatriotas brutalmente assassinados. A camuflagem já fazia parte da indumentária e, assim como Tamar e Judith, Michal e suas companheiras também saíram em defesa de pessoas em condição de vulnerabilidade.

Não importa se lemos os textos da Torá como relatos históricos ou ficcionais, canônicos ou apócrifos. Em qualquer dos casos, suas histórias nos ajudam a entender melhor o presente e nos inspiram a agir em tempos sombrios para que uma luz possa finalmente brilhar.

Nessas noites de Chanucá, rendamos nosso tributo às jovens camufladas que se arriscam para garantir a segurança em Israel, ao mesmo tempo em que continuemos a conclamar às organizações feministas internacionais suas manifestações de solidariedade com as vítimas do 7 de outubro e seus protestos pela liberação daquelas que ainda se encontram reféns nas mãos do Hamas.

 

Shabat Shalom e Chanucá Samêach!

Rabina Kelita Cohen

 

[1] Gênesis 38.

[2] Gen. 38:14.

[3] Judite 16:25

[4] The Times of Israel, 26 de novembro de 2023. Disponível em https://www.timesofisrael.com/female-idf-tank-crews-ran-down-dozens-of-hamas-terrorists-on-october-7/

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